The Project Gutenberg EBook of Aquela Famlia, by Ladislau Patrcio

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Title: Aquela Famlia
       (Tipos, caricaturas e episdios provincianos)

Author: Ladislau Patrcio

Release Date: October 7, 2010 [EBook #34039]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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Produced by Mike Silva






                            Ladislau Patrcio


                             Aquela famlia...


               (Tipos, caricaturas e episdios provincianos)



                             1914--COIMBRA
                             MOURA MARQUES
                            Livreiro editor
                     19, Largo Miguel Bombarda, 25

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                             Aquela famlia...



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                          TIPOGRAFIA PROGRESSO
                      DE DOMINGOS AUGUSTO DA SILVA
                       Rua Dr.  Souza Viterbo, 91
                              Porto--1914

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                            Ladislau Patrcio


                             Aquela famlia...


               (Tipos, caricaturas e episdios provincianos)



                             1914--COIMBRA
                             MOURA MARQUES
                            Livreiro editor
                     19, Largo Miguel Bombarda, 25

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Aquela famlia...


Aquela famlia...

A princpio eu ia s, numa carruagem de _segunda_, o que me permitia
desfrutar o panorama e gozar uma relativa comodidade. Mas mais adiante,
numa estao qualquer, mal o comboio parou, a portinhola abriu-se e o
meu compartimento foi invadido de assalto por uma famlia inteira que
atravancava tudo: rdes, bancos, o menor espao disponvel, com malas,
embrulhos e cestinhos,--uma infinidade de volumes!

O chefe do rancho era um homem ndio, sanguneo, que rebocava uma
senhora pesada (onde eu adivinhei a espsa) e mais duas raparigas e um
garoto, de marinheiro, magrinho, linftico e triste.

Auxiliei-os. Fiz meno de ajudar as damas a subir. E quando a
mquina apitou e o trem se ps em marcha com um ranger de molas e de
engates, ainda ns todos dispnhamos a bagagem amontoada nas propores
dum Himalaia.

Agradeceram, muito penhorados; e depois de instalados convenientemente,
o dono de tudo aquilo, que limpava com um leno enorme as bagas de suor,
pediu-me licena para tirar o casaco e envergar o guarda-p.

--Parece que estamos no Congo! justificou. Este calor est mesmo a
exigir tanga...

Eu sorri, relanceando um olhar s donzelas, que sorriram tambm,
ruborizadas, daquela ideia africana do pap. E ste, farejando em mim
uma ndole comunicativa, inquiriu satisfeito:

--O cavalheiro vem de Lisboa?

--No senhor. Eu sou da Beira.

--Da Beira!... Ento  de Vizeu?

Sorri de novo, discretamente, respeitando as noes corogrficas do
viajante simplrio, que o acaso colocra assim na minha presena.

Apressei-me por isso a confirmar:

--Sou de Vizeu...

--Nesse caso conhece l o Gasto?

--O Gasto?!

--Sim, o Gasto Vieira, dos Impostos.

Achei divertido conhecer o Gasto. Recordei-me:

--Ora se conheo! Estou doido! Conheo perfeitamente...

Mas depressa ca em mim, reflecti que podia ser colhido na mentira. Foi,
portanto, para eximir-me a perguntas que ferviam j nos lbios do
companheiro que eu perguntei do meu lado:

--E V. Ex.? V. Ex.  daqui dstes sitios?

--Sim senhor. Mas agora vamos para banhos. Isto que o sr. aqui v (com
um gesto circular indicava a famlia) pertence-me. O rapaz  fraquito,
tem escrfulas (apontava o pescoo do fedelho) olhe!--Dizia-me o dr.
Maia... Conhece?

Declarei que no.

--Pois admira... Espere, agora me lembro: deve conhecer. le at costuma
ir muito a Vizeu.  irmo do padre Levi, Levi da Maia, duma
famlia muito ilustre que tem uma irm viscondessa. O sr. conhece com
certeza...

E como eu insistisse na negativa:

--O padre Levi, homem! o que escreve no _Vouga_... No conhece o senhor
outra coisa!

Tive de lhe dizer que sim.

Havia-me insinuado j no nimo duma das meninas com quem entretinha
desde a ltima estao um namro matreiro: e apontava-lhe como flechas
os olhos amorudos, dardejando-me ela os seus, redondinhos, negros,
sertanejos...

--Pois o dr. Maia,--tornava o pai--dizia-me muita vez: Alves, leve voc
o rapaz ao mar; leve voc o rapaz ao mar que se cura.--Mas  doutor,
veja l, tenho agora tantos afazeres (e tinha) se o rapaz fsse coisa
que se pudesse a endireitar, que demnio, tomando umas drogas...--No,
no, sem banhos no se pe direito.--Que havia eu de fazer? Que fazia o
senhor nas minhas condies?

Esperou resposta; e como lha no dsse:

--Saa, no  verdade?

--Pois claro!

--Foi o que eu fiz. Mando arranjar as malas, tranco a porta, meto toda
esta tropa no comboio... e c vamos!

--Faz muito bem.

--Acha?...--poisava a sua mo sapuda na minha cxa, todo familiar.--Acha
ento o cavalheiro que fao bem?...

--Mas isso nem se pergunta! aplaudi sem reservas.---Mesmo que no
houvesse preciso, que infelizmente h; bastava s a ideia de irem gozar!

--Gozar! Mas olhe que se gasta um dinheiro!

--Pois gasta. E isso que tem? A gente no vive s do que mete no
estmago.  preciso ver, dar de comer aos olhos.

--Dar de comer a qu?

--Aos olhos...

--Huum! mugiu.

No percebra. Suava com o calor, nas fontes, nas bochechas, mrmente
nos refgos do cachao, duma grande riqusa de tecidos celulares...

Entrou depois a divagar sbre economias expondo-me numa franqueza saloia
o oramento da viagem; e tentou por ltimo explicar pela hereditariedade
a compleio mrbida do filho:

--Isto  de familia! O av dle, meu pai, tambm assim era: sempre
doente, sempre com remdios. Mas a av,  curioso! robusta, crada,
parecendo que vendia sade... Eu, aonde me v, nunca tive uma dr de
cabea! Mas j um tio que nos morreu h trs anos...--Voltou-se para uma
das filhas:--O tio Aristides...

--Ah!

E relatou o que era sse tio, com os seus achaques, suas mazelas, seus
ungentos e seus tumores supurativos, em salvo lugar...

Alves dispunha-se em suma a fazer-me seguir todas as ramificaes
patolgicas da sua ascendncia! Passei a no lhe responder, dizendo-lhe
a tudo _que sim_, com a cabea.

E a rapariga, de l, muito meiga...

No meio desta felicidade, porm, a certa altura--na altura de
Ovar--passou-se um episdio triste, de que fui vtima, o qual produziu
profundo desgsto em todos ns. Fra o caso que, sobranceira ao meu
lugar, ia uma cesta; seno quando, a se pe ela a mijar sbre mim, no
meu chapu mole, qualquer gorduroso lquido em fio... Ergo-me dum pulo.
Houve um alvoroo no compartimento. Alves gritou: oh, demnio! oh,
demnio!

Entretanto algum explicava que tinha sido o mlho do peixe que se
entornra...

O mlho do peixe!

Eu tinha ento j tirado o meu chapu e olhava desolado a ndoa negra,
enorme, que alastrava, se embebia no feltro da aba, inutilizando-o sem
remdio!

Cro de lamentaes e desculpas:

--Ora esta!

--Uma assim!

--S a ns  que acontece...

E de corao alanceado, com ancias de espancar aquela gente brbara, eu
ainda ganhei fras para lhes dizer:

--No faz mal; no se incomodem. At tem graa! Pelo amor de Deus!...

Ocorreu todavia aqui uma coisa galante que me cativou: essa das duas
meninas que me havia j endoidado o corao, num movimento impulsivo e no
mais aceso da balbrdia que se estabelecra, tira do seio o lencinho de
assoar e veio enxugar com le a ndoa indelvel.

Esquivei-me desvanecido:

--Oh, minha senhora...

E com o leno enrolado  laia de esponja, ela ia chupando, chupando...

--Se calhar era novo...--disse-me, a meia-voz.

Respondi:

--Era novo.

--E bom?

Fiz um gesto de grandeza:

--Dezoito tostoes!

Alves voltou-se espantado para a espsa, que segredou a importncia a
outra filha, a quem o irmosito--que viera  janela do vagom a ver a
mquina--pedia choramigando e arregalando um dos olhos que lhe
tirasse um _algueiro_...

Da a momentos o comboio parava:

--Espinho!

Era a estao onde les se apeavam. Alves foi o primeiro a levantar-se;
tirou a carteira e entregando-me um bilhete ofereceu-me os seus fracos
prstimos, pedindo mais uma vez desculpa do desastre. As senhoras
cumprimentaram igualmente e quizeram tambm que eu as desculpasse. Eu
desculpei-as. E a mozinha da minha efmera namorada, ao despedir-se,
tremia como um passarinho, quando lha apertei numa presso
significativa. Segui-a com a vista at desaparecer pela porta da
estao; e numa derradeira vez que ela se voltou a olhar-me, no sei,
mas ia jurar que lhe vi lgrimas...

Encostei-me ento a um canto, sorumbtico, a fumar. O meu esprito
oscilava como um pndulo entre a suave lembrana daquela trigueira (eu
ainda lhes no disse que ela era trigueira) e a ideia negra do meu
chapu manchado. Ambos perdidos j agora para mim! ambos, pela
fra do Destino! Pela distncia que ia separar-me dela para no mais
talvez a tornar a ver; pela mcula que dle me apartava para nunca mais
porventura o poder usar!

Encarava eu filosoficamente a situao por ste lado, quando  janela do
compartimento assomou de novo o focinho do Alves, a farejar-me, a dizer:

--V. Ex. faz-me um obsquio? No se esquece, quando regressar a Vizeu,
de me recomendar muito ao meu amigo Gasto. Eu, tambm, quando lhe
escrever, hei-de falar muito de V. Ex. e da simpatia que nos inspirou a
todos. Criado de V. Ex....

Ouviram-se os sinais da partida. Estendemos as mos cordialmente; e ao
pr-se o comboio em andamento, Alves, com a minha dextra apertada, lembrou:

--Ah! E que l recebi as pras... Diga-lhe tambm isso, sim? Deliciosas!
Deliciosas!

Corria junto da carruagem, ao longo da _gare_, gritando ainda a plenos
pulmes:

--Deliciosas!

      *       *      *      *      *




A bca do sapo


A bca do sapo

    _Interior caseiro, modestamente mobilado. CARLOS e MARIA CELESTE
    conversam sentados, junto duma msa. A voz dle tem um timbre
    imperativo e enrgico; a dela  aveludada, melodiosa, humilde._

    _Tarde de novembro. Ameaa chover._

CARLOS

Compreendes que me seria muito desagradvel que algum soubesse o que
tem havido entre ns...

MARIA CELESTE, _como se despertasse_:

Ah!... o que tem havido...

CARLOS

Ou o que possa porventura haver ainda... Porque eu, apesar do que vai
acontecer, no quero romper comtigo duma maneira absoluta. No se
vive impunemente trs anos com uma mulher. s uma rapariga de
corao--no to digo para que mo agradeas; e sinto que no devo
abandonar-te...

MARIA CELESTE

No, Carlos, enganas-te; eu nunca mais serei tua, haja o que houver.
Nunca mais!

CARLOS

Endoidecste?!

MARIA CELESTE

Creio que no endoideci. Vamos separar-nos, hoje, por toda a vida. Se
alguma vez nos encontrarmos j no sers o mesmo homem... nem eu a mesma
mulher. No nos conheceremos.

CARLOS

Ora! ora!

MARIA CELESTE

Afirmo-to!

CARLOS

Ters essa coragem?!

MARIA CELESTE

Se terei essa coragem!...

CARLOS, _aps uns momentos de reflexo, conciliador_:

Bem, no compliquemos as coisas: deixa-te de criancices.

MARIA CELESTE

Criancices?!

CARLOS

Decerto. No consegues convencer-me que essa tua resoluo seja inabalvel.

MARIA CELESTE

Vers.

CARLOS

Ou nunca me tiveste amor.

MARIA CELESTE

Seja: nunca te tive amor...

CARLOS, _apreensivo_:

E talvez. Se fosses minha amiga no te resignavas facilmente a
perder-me. Havia de custar-te a suportar um abandono, quanto mais...

MARIA CELESTE

Por isso mesmo,--porque sou tua amiga...

CARLOS

Palavras...

MARIA CELESTE

No quero tornar-me um fardo para ti.

CARLOS, _que principia a indignar-se_:

Palavras! Palavras!

    _Faz-se silncio. Os dois ficam absortos, sem se olharem._

CARLOS, _com uma serenidade forada, momentos depois_:

No queres certamente atribuir-me a responsabilidade do que sucedeu...

MARIA CELESTE

Nem tenho sse direito.

CARLOS

Sabes muito bem como as coisas se passaram.

MARIA CELESTE

Sei.

CARLOS

No ignoravas que um dia eu havia de me casar.

MARIA CELESTE

No ignorava.

CARLOS

Tive a franqueza, a lialdade de to confessar muito antes de me pertenceres.

MARIA CELESTE

Tiveste.

CARLOS

Tentei at por varios meios evitar a tua falta. Lembra-te que fste
minha por tua livre e espontnea vontade!

MARIA CELESTE

Lembro, lembro...

CARLOS

O teu acto foi, portanto, premeditado...

MARIA CELESTE

Pois foi.

CARLOS

No representa o cego impulso dum momento de paixo que eu ateasse, com
a mira numa conquista. Eu disse-te: Maria Celeste, pensa,
reflecte, olha o que te pde suceder... esquece-me.  isto verdade?

MARIA CELESTE

.

CARLOS

S tu fste nsse caso responsvel. Fste tu que assim o quiseste...

MARIA CELESTE

Fui eu que assim o quis.

CARLOS

Pois bem. E agora, quando podia abandonar-te sem remorsos, apenas com a
amarga sadade do que tens sido para mim; e que venho oferecer-te,
desinteressadamente, a promessa de continuar a ser para ti um amigo, um
protector... algum...

MARIA CELESTE, _com tristeza_:

Algum!...

CARLOS

Sim! E repeles-me, afastas-me como se eu fsse o pior, o mais grosseiro,
o mais indigno dos homens!

MARIA CELESTE

Carlos!

CARLOS, _fra de si_:

Oh! a ingratido!... A ingratido!

    _MARIA CELESTE cala-se, sucumbida. Os olhos arrasam-se-lhe de
    lgrimas; e ficam assim os dois numa nervosa hostilidade, le a
    passear na sala, resmungando censuras, e ela chorando, muda e
    convulsivamente, sbre o leno molhado._

MARIA CELESTE, _dominando a comoo_:

No quero que me consideres uma despeitada. Justifico a tua clera, as
palavras severas que me diriges, tudo, emfim, porque te
compreendo... porque te estimo. Ainda bem que reconheces que eu no fui
para ti uma amante vulgar. E no fui. Amei-te com um amor verdadeiro,
livre, sem condies.  certo que me aconselhaste, que me preveniste a
tempo, mas... de que servia? S quem no ama sabe interpretar conselhos
e ouvir razes... Quantas vezes, comigo, no isolamento do meu quarto,
calculei a profundidade do abismo em que cairia se me deixasse levar
pelo corao. Pobre de mim! Mil vezes deliberei no te receber, mil
vezes no te falar mais, nunca mais! Mas apenas subias aquelas escadas e
ouvia o ruido dos teus passos... oh! ento, o meu juizo turbava-se, as
minhas mos arrefeciam, a minha alma, o meu corpo, a minha vida inteira,
fugiam para ti! E pensava:  o Destino...--Uma tarde, uma noite, sabes
bem o que se passou... Era o cu, era a felicidade que se me deparava.
Sabia que isto no podia durar sempre, que tudo acabaria depressa... que
havias de te casar: tu dissras-mo!... Mas achava-me to bem, to
contente de viver assim, que no pensava, no queria pensar que
essa hora amarga chegaria breve! (_Comovida_:) O que me prendeu a ti,
sobretudo, foi a tua franqueza, sse mixto de compaixo e indiferena
que por mim professavas, os melindres da tua conscincia, a previso do
que poderia resultar, na certeza de lhe no dares remdio... Tudo isso
me tentou, me seduziu como uma coisa terrvel que se teme--e que
irresistivelmente nos atrai...

CARLOS, _condodo_:

Fui para ti--pobre dninha inconsciente e louca!--uma espcie de bca do
sapo, queres dizer...

MARIA CELESTE

Fste o meu nico, o meu exclusivo amor na vida! (_Fita-o nos olhos
penetrantemente_). Anda, diz'-me l se isto no  assim, se isto no 
verdade?!...

CARLOS, _impressionado_:

Ouve-me, Maria Celeste, escuta...

MARIA CELESTE

No, no! no posso... no teimes.

CARLOS

S razovel...

MARIA CELESTE

No teimes. Quero conservar-me sempre digna de ti.

    _H um silncio concentrado._

CARLOS, _numa ideia repentina_:

E se eu desistisse de casar? Ou antes, se te dissesse para casares
comigo?...

    _Olha-a com ansiedade._

MARIA CELESTE, _resolutamente_:

No aceitaria.

CARLOS

Qu!?

MARIA CELESTE

No aceitaria. Pelas cinzas de minha me, acredita!

CARLOS, _abismado_:

E porqu?!

MARIA CELESTE

Porqu?...

CARLOS

Sim.

MARIA CELESTE

Porque tens uma noiva, porque empenhaste a tua palavra. Depois...

CARLOS

Depois...

MARIA CELESTE

Porque me no amas, Carlos...

CARLOS

Mentes!

MARIA CELESTE

Como queiras... (_Pausa_) Eu fui para ti apenas isto: uma pobre rapariga
que te interessou: uma curiosidade, uma aventura...

CARLOS

Uma aventura! Mas devo-te o que no devo a ningum!

MARIA CELESTE

?!

CARLOS

A tua honra. Dste-me a tua honra!

MARIA CELESTE, _com simplicidade_:

Pois nada mais tenho que te dar...

CARLOS

Como dizes isso!

MARIA CELESTE

Digo o que sinto.

CARLOS, _depois duma longa pausa_:

E que has-de fazer agora? Queres continuar a viver como vivias?

MARIA CELESTE, _encolhendo os ombros_:

Sei l!...

CARLOS

Podias ter sido feliz com outro homem...

MARIA CELESTE, _convictamente_:

No o podia ser com mais ningum.

CARLOS

Sacrifcio inutil...

MARIA CELESTE

No h sacrifcios inuteis nste mundo, meu amigo... Demais, tu fste
para mim o que tinhas de ser... No s culpado do meu infortnio.
Estou satisfeita, cr,--recompensada. (_Tentando convenc-lo_): Tu no
fizeste mais do que aproveitar uma mulher que se te oferecia...

CARLOS, _enternecido, toma-lhe as mos, que beija_:

s uma santa! (_Com uma infinita sadade a transparecer-lhe na voz_) E
lembrar-me que amanh tenho de deixar-te!...

MARIA CELESTE

Pacincia...

CARLOS

... que nunca mais tornarei a ver-te! que nunca mais porei aqui os ps
em tua casa!

MARIA CELESTE

Nunca.

CARLOS

Nem que um dia precise de ti?

MARIA CELESTE

Nem que um dia precises de mim.

CARLOS

 o fim de tudo, visto isso?

MARIA CELESTE

De tudo.

CARLOS, _num movimento impulsivo, de protesto_:

No, Maria Celeste, no ! Renuncia a sses teus propositos. Eu no
posso, no quero deixar-te.

MARIA CELESTE, _incrdula_:

No queres...

CARLOS

No quero. Duvidas?

MARIA CELESTE

Duvido. O que te impressiona agora  a minha presena. Quando sares
daqui tudo se desvanecer como fumo...

CARLOS, _sucumbido_:

Tudo se desvanecer!

MARIA CELESTE

Sim. Repara que eu fui para ti simplesmente--uma amante...

CARLOS

E ento?

MARIA CELESTE

Acabou tudo nste dia em que comeo a tornar-me um embarao para a tua
felicidade...

CARLOS

Maria Celeste: juro-te!

MARIA CELESTE

No jures. Tu no fundo sentes isto mesmo, mas no tens coragem de mo
dizer... s bom, tens d de mim. Mas nem todo o teu d, nem toda a tua
bondade conseguem dar-me a iluso de que sou amada!...

A que horas partes amanh?...

      *       *      *      *      *




Sr. Anselmo


(Perfil grotesco dum provinciano ilustre)


(1906)


I



Sr. Anselmo


(Perfil grotesco dum provinciano ilustre)


(1906)


I

Nasci em 74--eu, Teotnio Mendes, de muito boa famlia.

Tenho, portanto, actualmente (1906) trinta e dois anos.

A minha vila fica entre serras, na vertente dum vale, e o calor ali
aperta sempre muito.

Naquele vero sobretudo (eu no sei se os senhores esto bem lembrados)
no vero a que se referem stes acontecimentos, mal se respirava. As
fontes secaram; a vegetao, sequiosa, sufocava sob ardentes
nuvens de poeira, e as pedras nos caminhos quase estalavam com o sol.

Horrvel!

Ha quatro mses que no chovia. Moviam-se prces ao Altssimo,
celebravam-se procisses, missas--_ad petendam pluviam_--mas do cu
afogueado e sco... nem pinga!

_Cumulus_ de trovoada, no horisonte longnquo, relampejavam em noites
caladas, logo desaparecendo varridos dum bafo mrno de canculas.

Dizia-se, farejando as alturas:

--Isto  que vai ser! isto  que vai ser!

Os dias sucediam-se no emtanto ronceiros, bocejados, com um firmamento
implacvel, de bronze, e a aflio da terra calcinada e triste.

O termmetro de Anselmo continuava a marcar muitos graus. ste Anselmo,
farmaceutico, grande influente poltico na localidade, era com efeito
uma figura curiosa e tpica. Inteligente, astuto, conhecido rbitro em
questes de pso, dava as leis e orientava a mentalidade sertanja da
vilota.

Mesmo os mais orgulhosos e independentes, senhores do seu nariz,
sofriam a sugesto infalvel daquela poderosa vontade.

--Ali, na Turquia...--dizia por exemplo le.

E tinha a gente a impresso de que a Turquia era ali mesmo, a dois
passos, que podiamos l chegar se quisssemos,--a p!

Anselmo todavia nunca viajra. Perdo! foi uma vez a Lisboa por trs
dias, e viu a Galvni no Coliseu.

--Que tal? perguntaram-lhe, quando voltou.

--Um rouxinol!

J essa noite no club, o fidalgo da Vla, homem na verdade muito
entendido de msica, recomendava:

--- preciso ir a Lisboa...  Galvni. Diz o Anselmo que  um rouxinol.

Geradas nas bitesgas do seu crebro e reveladas depois a um crculo de
amigos no cantinho da farmcia, as suas ideias extravasavam c por fra,
caudalosas, engrossando, impondo-se, fazendo opinio. Alvitre que
trouxesse marca de to abalisada procedncia, dava sempre coisa
que se visse, convertia-se logo em rialidade: fsse uma rvore, um
baile, o itenerrio num cortejo, um espectculo--um urinol.

Casado, sem filhos (e sem esperanas j agora de os fabricar) Anselmo
professava pela espsa um amor e um respeito inconcebveis. Se algum
diante dle referisse factos menos edificantes ou alarmasse a
assistncia com a nova dalgum moderno escandalo em supurao, comentava
ruborisado e colrico:

--Deboche! Indecncia! Quem quer mulher arranja-a, mas casa-se, que  o
que todo o homem limpo deve fazer.

Ela, a D. Ermelinda, correspondia a essa louvvel demonstrao de bons
sentimentos da parte do marido, com uma dedicao sem limites, a que a
sua enorme fealdade--uma fealdade especfica, como diz
Camilo--prestava fiana idnea.


Alm do termmetro havia tambm na farmcia um barmetro. E todos os
dias amigo Anselmo informava a vila e arredores com aquele rigor
meticuloso, scientfico, aquela probidade verdadeiramente spartana, que
era um dos ornamentos hereditrios do seu caracter...

Ningum saa da terra, ningum projectava uma viajem, um passeio, que
no fsse primeiro consultar o Anselmo:

--Que diz voc?

E Anselmo, do alto da sua importncia quase divina, resolvia:

--Pde sair, homem; v descanado que no chove.

Ou ento:

--Deixe-se ficar; o barmetro desceu e temos gua.

Sei at de pessoas que atribuiam tamanha autoridade a Anselmo em
assuntos meteorolgicos, que havendo resposta negativa chegavam a
observar-lhe:

--Demnio! Faz-me tanta falta agora no poder sair... Se isso fsse
coisa que se pudesse arranjar, sr. Anselmo...

le no se perturbava, no achava aquilo de mais, respondia:

--Tenha pacincia, homem, resigne-se; para outra vez ser. Tenha pacincia.

Quem  que sentia frio ou se queixava de calor emquanto Anselmo no
manifestasse que sim, que estava calor ou que havia frio?--Anselmo batia
o dente? Venham os jaquetes, os agasalhos, os capotes... Anselmo
transpirava? As janelas logo se abriam e largavam-se os cobertores, as
brazeiras...

No era s respeito--era mdo!

Nessa altura, por exemplo, o boticrio decretra que havia um calor
excessivo. Toda a gente entrou a dizer que era de mais, que uma tal
temperatura se no aturava, uff! que havia um calor excessivo...

Certo dia Anselmo lembrou na farmcia que talvez andando nu.... Pois
surpreendi gente digna, disposta a seguir-lhe o conselho, quase a pr-se
como le dizia...

Pela uma hora Anselmo examinava o termmetro (chamava-lhe: _a coluna_)
primeiro  sombra, metdicamente, em seguida aos raios directos do sol,
na soleira da porta.

Fregus que aps esta operao penetrasse na farmcia era antes de
mais nada avisado pelo Anselmo dos graus que atingira a temperatura
ambiente:

--J sabe?... 30  sombra e 50 ao sol!...  de rachar!

Depois  que aviava a receita limpando o suor da pescoceira ao mesmo
pano com que enxugava as garrafas dos remdios.

A notcia circulava rpida. Perguntava-se por hbito:

--J viu o termmetro? Quantos marcar hoje o termmetro do Anselmo?

E a por volta das duas j se sabia, j constava c por fra:

--Ento hoje, hein? 30  sombra e 50 ao sol no termmetro do Anselmo!

Desapertavam-se os coltes...

De facto, desta vez tinham razo. Havia umas horas no dia em que as ruas
ficavam desertas, s as moscas e as abelhas faziam o seu giro zumbidor.
Dos canos e das valetas onde levedavam detritos, subiam no ar quente
exalaes pestferas. Eu esperava o correio com ansiedade, por causa dos
jornais, as janelas do quarto entre-abertas, o pavimento borrifado
com gua; ali me conservava naquela meia penumbra, estirado na cama, de
papo para o ar... e nu, consoante o Anselmo preconisra.

Saa s  noitinha, que refrescava um pouco, quando a vila se punha a
respirar s portas das lojas, ou passeava em grupos pelas estradas, os
homens de chapu na mo e as senhoras de vestidos claros, muito
lnguidas, com as blusas desbotadas nos sovacos--da transpirao diurna.


Foi por essa poca que eu recebi a carta do meu amigo
Felizardo--Felizardo Antunes Vieira Leite, do Porto--convidando-me a ir
passar com le uma temporada numa quinta do Minho, para onde partia
nsse mesmo dia com a me, uma senhora respeitvel que desejava muito
conhecer-me.

No vero iam sempre para l, dois mses, a regalarem os pulmes viciados
do ar urbano e a vigiarem de perto as colheitas naquela quadra mais
intensa da vida agricola.

Adorvel amigo!

Acabei de ler a carta e ergui-me dum pulo. Abri as janelas de par em
par, para que a luz entrasse amplamente. Depois puxei os gavetes e
pus-me a atacar de roupa a minha maleta de viagem. Porque eu ia viajar,
senhores! Eu ia emfim ver sse Minho pitoresco de que ouvira sempre
falar com tanto entusiasmo.

Fui ao telgrafo e expedi para _dr. Vieira Leite_ o seguinte aviso:
Chego manha.

As delcias do progresso!

Jmais aprecira como nsse jovial momento esta coisa cmoda e vulgar
que se chama--o telegrama. E a descer as escadas dos correios eu ainda
vinha a parafusar nas belezas da Civilisao,--contente, reconhecido...


De passagem, porque me ficava a caminho, entrei na farmcia. Nunca me
dobrra em contumlias aparatosas de adulador ante a figura severa do
boticrio. Nunca balanra com mo subserviente o turbulo da Fama com
que a vila usava incens-lo. Digo isto sem a menor sombra de
prospia e sem querer censurar ningum,--apenas para estabelecer a verdade.

Eu sou um apstolo da Verdade!

Mas que razes me dra Anselmo que justificassem, at  data, a minha
frieza, o meu desdm, quase? A valer, nenhumas! Ficar-me-ia mal,
portanto, que eu tivesse desta vez uma ateno e pondo de parte
caprichos, orgulhos, lhe perguntasse muito cortsmente se queria alguma
coisa para sse Minho?

Anselmo estava s, absorvido na laboriosa manipulao duma pomada. Um
enxame de moscas poisava na gaze suja que revestia o candieiro de metal
suspenso do teto fuliginoso; e atrs, sbre o pano fundeiro, lia-se no
vidro fosco duma porta interior esta palavra em letras gordas debaixo
dum emblema galnico:

    LABORATORIO

Avancei, anunciei-lhe o objecto da minha visita. O boticrio ergueu a
fronte majestosa, reconheceu-me, e mergulhando de novo no trabalho,
rosnou por entre dentes:

--Boa viagem!...

Aquilo vexou-me; no eram formas de corresponder a uma delicadeza. Vai
no vai estive para lhe dizer das boas, das fortes,--das minhas...

Mas no pude. No sei porqu, mas no pude.

Dei umas voltas fra do balco, meio acobardado, com um terror
supersticioso que no me deixava falar, nem me permitia arredar p.

Coisa esquisita!

Baralhavam-se-me as ideias e, na confuso mental em que me via, uma s
coisa me preocupava impertinentemente: se aquele Anselmo, aquele pigmeu!
teria rialmente alguma influncia no destino das chuvas, do vento ou das
trovoadas?

Admitida a hiptese, podia muito bem, querendo, vingar-se de mim. Que
mais no fsse seno uma telha despenhada do alto dum prdio, no sopro
duma rajada acintosa, sbre a minha cabea mpia.

Mas...--protestava uma voz do fundo de todo o meu ser
angustiado--o Anselmo, que pisava linhaa, que eu via ali na minha
humana presena a fazer pomada!? Insensata apreenso, pueril receio, que
o falso, infundado prestgio de semelhante figuro, exercendo-se sbre o
meu esprito num inexplicvel momento de fraqueza, havia logrado produzir!

Ah! mas a desforra ia ser tremenda! Eu ia resgatar, num gesto nervoso e
varonil, a liberdade de pensar e de procedor de toda uma pequena aldeia
de fanticos, mostrando na hora augusta da emancipao,  luz da
evidncia e da subtil anlise, o que sse insignificante valia por
dentro--como homem e como divindade!

Mas de novo uma dvida, um vago temor se interps ao meu intento,
quebrando-me as foras, jugulando-me,--nem que alguma poderosa mo
invisvel estivesse ali sbre mim suspensa e pronta a estrangular-me 
primeira voz.

--Ora esta! murmurava eu mentalmente, ora esta!

E passados instantes, tornando a olhar o boticrio, que continuava
indiferente e mudo a esmagar com a esptula, sbre um pedao de mrmore
polido, uma pasta esbranquiada e fedorenta, perguntei-lhe com a mais
cariciosa das maneiras:

--E que me diz o meu amigo do tempo?...

Ora! foi uma beleza: um milagre! Levantou de novo a cabea, que me
pareceu agora aureolada, e encarou-me. Tinha estampada no rosto a
surpreza que a pergunta lhe causra. Vi-o sorrir; e mirando o barmetro
(ou o termmetro: no sei...) veio at mim, afvel, meigo, aliciador.
Percebi que ia ter uma resposta, significando talvez o beijo tcito da
reconciliao. Eu ia confraternizar com Anselmo, abra-lo, entrar-lhe
na intimidade... Que bom! Que pechincha!

Nessa altura porm, um sujeito baixo, agitado, nervoso, investe porta a
dentro com os braos no ar, exclamando:

-- Anselmo!  Anselmo! voc j viu? voc j sabe?

Fitmo-lo surpresos.

Era o Menezes, jornalista, que assim vinha estragar a doce situao.

--Que , homem, que ?!... Conte l, desabafe! disse o boticrio sem
encobrir o seu mau humor.

E o outro, com muitos gestos, esbaforido:

--O ministrio! caiu o ministrio!

E sentou-se por j no poder.

Anselmo largou a esptula:

--Que me diz?!

--Olhe, veja!...--murmurou sufocado.

E estendeu-lhe um papel, um telegrama, aonde vinha tudo explicadinho:
ministrio em terra, chamado Joo Franco, parabens. No era preciso mais!

Anselmo ficou sem ar. E o Menezes, outra vez muito excitado, ia e vinha
da porta ao balco, do balco  porta, a rir-se, transtornado da cabea,
doido com a histria.

--At que finalmente, dizia, ora at que finalmente: o Joo Franco! 
Anselmo,  menino, mas voc j pensou bem no caso? O Joo Franco!

E esfregava as mos de contente.

--Agora  que se vai ver o que  governar s direitas; agora sim,  que
se vai ver o que  governar!

O boticrio quase no queria acredit-lo. Ficra banzado! E o Menezes,
vociferando:

--Corja! Os outros por pouco que no pem o pas a saque! Tudo a comer,
tudo! E eu, e voc, e os mais,--os que trabalhmos--a pagarmos para
aqueles piratas!

Anselmo sorria benvolo s consideraes acerbas do jornalista que
prosseguia irado, numa linguagem perversa:

--Scia de gatunos! Pulhas! Pulhas!

E j frentico, em altos gritos:

-- bem feito,  bem feito: rua!  bem feito!

Comeou a juntar-se povo, garotada, a quem o Anselmo, vindo  porta,
enxotava, explicando:

--Que ? que  que vocs querem? Foi o ministrio que caiu... Vo-se
embora!

Um dos gartos porm, mais curioso e atrevido, foi a espreitar para
dentro, pelos vidros da outra porta,--a ver se via o ministrio no
cho...

A Anselmo continuava no emtanto a afigurar-se-lhe aquilo um sonho. Assim
to de repente, sem se falar em nada, sem ameaas de crise... No seria
balela?

O jornalista ento ps-se a raciocinar: Qual! era lgico; o Hintze
fartra-se l de fazer asneiras, e antes dle toda a gente sabia que
quem governava no era o Z Luciano: era a mulher.

Tomou flego, prosseguiu:

--Quando a veio o imperador da Alemanha, e a rainha Alexandra, e o
outro... (fez um gesto com o polegar na direco da raia) o de Espanha,
nem sequer tnhamos um presidente do conselho em termos de se
apresentar! Uma vergonha!

Cuspinhou, bateu com a bengala, consultou o relgio. Era tarde.

--Olha o Teotnio! Voc a!--disse, dando por mim.--Desculpe, no tinha
reparado... Ento que diz a isto?

--Eu?...

--Sim, que diz voc a isto?

Encolhi os ombros, sem responder, verdadeiramente embaraado. E le:

--Nem de encomenda, meu caro, nem de encomenda! O Joo Franco nestas
alturas foi a sorte grande para o pas!

Estendeu-me dois dedos a despedir-se; e quando se retirava:

-- verdade,  Anselmo, voc agora volta outra vez l para cima, para a
cmara. Creio que agora...

--Qual cmara nem qual carapua, ops o farmaceutico, modesto--o que eu
quero  que me deixem. Teem a muita gente...

Menezes no via, no achava:

--Muita gente! Aonde?...

Foi ento que eu, Teotnio, julguei oportuno intervir:

--Se me do licena, direi que sou tambm do parecer do amigo Menezes...

--Diga, diga! aprovou ste.

-- impossivel na verdade encontrar por todo o concelho quem, como o sr.
Anselmo, seja capaz de desempenhar com tanta capacidade e
proficincia o papel de presidente do municpio.

--Apoiado!

--Haja em vista,--justifiquei, voltando-me para le,--o que V. Ex. fez
da outra vez por ocasio da grve das leiteiras!

--Ora, ora...--desdenhou Anselmo.

-- a verdade,  a verdade! aplaudiu o Menezes.--Est na memoria de
todos. De todos!--repetiu, aprumando-se, nos bicos dos ps.

--Andava-se aterrado, continuei, como na vspera dos grandes
acontecimentos. Dizia-se que ficaramos sem leite na vila por uns poucos
de dias!

--Um alimento de primeira necessidade...--avolumou o jornalista.

--Vai ento o sr. Anselmo, num abrir e fechar de olhos, resolveu.
Lembro-me como se fsse hoje da memorvel sesso a que assisti e em que
V. Ex. sossegou a populao, declarando que uma grve dessa natureza
seria para temer se em vez de ser feita pelas vendedeiras de leite,
fsse feita pelas prprias vacas...

--Sim senhor...--confirmou o Menezes.--Lembro-me perfeitamente; eu
tambm l estava. Por sinal que estreei um fato nsse dia...

--Emfim, rematei, e quantas coisas mais!? A quem se deve por exemplo o
melhoramento entre ns do carro do lixo?

Menezes coadjuvou-me, indicou o boticrio:

--A le!

--A quem se deve a construo do coreto na Praa Nova?

--A le!

--A quem se deve a compra dum irrigador para o hospital civil?

--A le! a le s!

-- senhores, pelo amor de Deus! confundem-me!--bradou o boticrio
rialmente confundido, levando as mos ao crneo--Eu sou um humilde
trabalhador, com desejos de acertar, de bem servir a minha terra e os
amigos. Nada mais!

--sse pouco...

--Mas quanto a poltica, francamente, confesso--estou farto; estou farto
dela at aos olhos!

--Isso diz le agora, isso diz le agora, murmurou o Menezes,
piscando-me o lho.--Olha quem, o rgulo!

Depois, despediu-se; chegou mesmo a descer o passeio; mas voltando atrs
afogueado:

--Oua l, Anselmo, e hoje? o termmetro?

Anselmo foi verificar. Inclinando para o solo o dedo indicador, hirto,
num gesto omnipotente, informou:

--Desce!

--Ah! timo... Assim era duma pessoa morrer!

E muito meneado, o jornalista l se foi de vez a semear notcias.


Dispus-me ento a comentar o caso a ss com o Anselmo. Do seu facundo e
preclaro esprito viria at mim, triste mortal, o bom conselho, a
opinio autorisada e justa...

Ministrio em terra, o Joo Franco inesperadamente no poder... Era com
efeito um extravagante acontecimento.

Eu nunca fra, porm, um poltico interessado. A dizer a verdade, no
sabia mesmo se aquele facto, na aparncia sensacional, representava uma
vantagem ou um inconveniente para o pas. No me encontrra jmais
inclinado para stes ou para aqueles. A ser um franquista, um
progressista ou um regenerador, preferia no ser coisa nenhuma--que 
para o que eu me sinto rialmente com vocao...

Naquele momento todavia achei o Joo Franco simptico. Decerto vinha
animado de bons propsitos, decerto; e era um homem rico, o que--seja
dito de passagem--significava uma grande segurana para a
inviolabilidade do Tesouro... Menezes tinha razo.

Todas estas consideraes eu adusi a Anselmo, que me fitava e sorria
satisfeito.

--Mas porque caria o Hintze? indaguei.

Anselmo torneou o balco, veio dizer-me ao ouvido:

--O rei, entende? que tem um medo dos rpublicanos que se fina (isto
aqui para ns) e quer l no poder um homem de envergadura, um homem que
os tenha no seu lugar, ora entende o senhor? Para isso, ningum mais
nas condies de que o Joo Franco. O Joo Franco  um valente! Se
lhe constar, _verbi gratia_, estando aqui, que l fra a uma esquina h
um homem com um cacete  espera dle--acredite-- quando l passa mais
depressa. Olha quem!... Nem o Bismarck!

Eu ia acompanhando com interjeies o caloroso panegrico do ministro. E
quando Anselmo terminou:

--Efectivamente, o Joo Franco...

Anselmo benzeu-se:

--Ah! meu amigo:  um colsso!

Fez-se silncio. O boticrio acondicionava numa caixinha a pomada
preparada. Assoou-se. Escreveu um rtulo e colou-o na tampa, a assobiar
o hino da carta.

--Diga-me uma coisa, inquiri; o Menezes no era progressista?

--Era; mas passou-se para os nossos h-de haver um ms.  um convicto.

--Parece.

--E brioso; um cavalheiro.

--Parece.

--Ali o Souto dos telgrafos mijou-lhe um dia fra do tsto...

--O Souto? Ah! sim... Mas sse  um trampolineiro!

--. O sr. fala-lhe?

--s vezes, por cortesia...

--Pois uma ocasio teve o descaramento de afirmar, no club, diante de
quem o quis ouvir, que um artigo que o Menezes publicra no era do
Menezes e que era... sabe o senhor de quem? imagine!--do Navarro, do
Emdio Navarro!

--Patife!

--... que tinha vindo nas _Novidades_ j no sei h quantos anos, e que
o Menezes o fra copiar, alterando apenas ligeiramente a forma.

--Patife! patife!

--O Menezes, mal aquilo lhe chega aos ouvidos--le que  um
esturrado!--agarra num vergalho e onde encontra o Souto prega-lhe uma
destas coas...

--Bem feito.

--De manh j o Menezes aqui me tinha dito a mim, furioso:
Juro-lhe, Anselmo, que onde encontro aquele tratante, quebro-lhe um
crno.--Se bem o disse melhor o fez: vai e quebrou-lho.

--Anda-me.

--No domingo imediato, quando tudo supunha a questo arrumada, zs: sai
o jornal? Eu cheguei a saber aquilo tudo de cr, homem!

Concentrou-se, os olhos fechados, a mo na testa, a ver se se lembrava.

E com pesar:

--J no vai; pacincia!

-- pena.

--Mas digo-lhe o final, descance, que sse  daqui...--e beliscava o
lbulo da orelha. Ento, o brao estendido, em atitude declamatria, o
polegar e o ndice aplicados num gesto precioso, recitou, com uma
pontinha de malicia nos olhos: Diz D. Bazlio que da calnia alguma
coisa fica. No temmos, porm, etc., etc., etc.... Repare agora: Os
aleives resvalam na conscincia dos justos como zagalotes no ao.
(Anselmo sublinhava: _como zagalotes no ao..._). Todo o mundo sabe que
s usamos o que nos pertence... (_Piscadela de lho do Anselmo_)
No costumamos botar figura com coisas alheias: o dinheiro dos amigos
ou as joias das amantes: _Meneses dos Santos_.

--Isso  medonho! comentei.

Emquanto Anselmo repetia, vibrante de entusiasmo:

--O dinheiro dos amigos ou as joias das amantes! Refere-se  mulher do
notrio... Genial! genial!

Rimos depois muito, com aplausos efusivos ao jornalista e censuras ao
procedimento do Souto, que fra indecente.

A conversa decau. Anselmo bocejava. Eu peguei num jornal, percorri-o
com a vista, distrado.

--Ento sempre vai amanh? perguntou-me.

--Sempre vou amanh.

--Pois o tempo est firme. A _coluna_ desceu, mas descance que no h-de
haver novidade. Isto conserva-se.

Bateu-me no ombro palmadinhas amigveis:

--Pode ir descanado...

--O sr. Anselmo no quer para l nada?--perguntei.

--No; quero que tenha muita sade.

Fitou-me carinhosamente:

--E veja se engorda, coma-lhe! Parece que anda magro, homem... D c um
abrao.

Estreit-mo-nos peito com peito. ramos dois amigos velhos... Comovi-me;
e visto que se faziam horas de jantar, segui rua abaixo.

--At  volta!

--At  volta!...

O sol abrasava. Quando dobrei a esquina, olhei. O boticrio tinha vindo
 porta, dizia-me adeus de l,--com a mo...

      *       *      *      *      *




Sr. Anselmo


(Perfil grotesco dum provinciano ilustre)


(1912)


II




Sr. Anselmo


(Perfil grotesco dum provinciano ilustre)


(1912)


II

Anselmo estava em Nagosa, fazendo a vindima, quando se declarou em
Lisboa o movimento revolucionrio de outubro.

Tinha vindo nesse momento de baixo, do lagar, aonde meia dzia de homens
hercleos, de cala arregaada e pernas ao lu, rxas como canelas de
perdiz, pisavam a uva, danando ao som de ferrinhos e de adufe uma dana
brbara, grotesca, entre uivos e assobios.

O filho mais velho do caseiro fra a Moimenta pelos jornais e por
tabaco, e a encomendar a carne do dia imediato, que era dia de
matana na vila.

No devia tardar.

D. Ermelinda arranjra a ceia: uma ceia de caldo verde e sardinhas
assadas, raras naquela regio e muito frscas,--nem que Nagosa fsse um
brao de mar e as houvessem ali pescado nsse instante... No fim, para
assentar, ch,--um chzinho de cidade, loiro e aromtico, dando a nota
apurada da civilizao aps aquele _menu_ de cavadores.



Viera a criada erguer a mesa, dobrando a toalha cautelosamente para no
espalhar as migalhas pelo cho, quando chegou o portador de Moimenta com
a notcia de que estalra a revoluo em Lisboa. A notcia era vaga e
incerta, sem pormenores, porque no havia jornais nem o telegrafo
funcionava; um caixeiro de amostras chegado de Lamego essa madrugada, em
deligncia, espalhra a novidade e dissra que Lisboa, a essa hora, era
um mar de sangue!

Desde o assassinato do rei que Anselmo sentia um forte desnimo por tudo
isto... D. Carlos, tipo de sibarita sem escrpulos, inteligente,
mentiroso e gabarola, fra a ltima trave que ruira do desmantelado
edifcio monrquico. A sua morte, cuja forma, le, Anselmo--homem de
processos sbrios--veementemente reprovra, deixra o pas em alvoro,
debatendo-se nas garras duma agonia cruciante, mal amparado por gente
tmida, com um rei no trno que no era rei nem era rainha, figurita
dbil e epicena de maricas.

--Havemos de ir longe! profetisava com melancolia.


A nova da revoluo na capital, trazida assim, de sbito, quela hora da
noite, por um labrego analfabeto, a um lugar sertanejo e ignorado, no
o surpreendeu portanto, mas encheu-o de ansiedade e sobresalto.--Qual
seria o resultado de tudo aquilo? Venceria o govrno? Venceriam os
insurrectos? E depois: a interveno extrangeira?...

Um calafrio de susto percorreu-lhe a espinha dorsal ao pensar nisso, nos
horrores duma carnificina e dum saque. Viu-se desapossado dos seus bens,
violentamente,  coronhada; viu-se escorraado, prso, fusilado a uma
esquina! le estava dispsto todavia a declarar, sob sua palavra de
honra, que embora tivesse militado no partido franquista, no tinha a
mnima sombra de responsabilidade no indigno decreto de 31 de Janeiro...

--Com que ento Lisboa  um mar de sangue? perguntou de novo ao seu
rstico informador, como para certificar-se de que no delirava. E
confirmada a notcia, comentou:--Pois bem... Ns c no temos nada com
isso; l  com les. Acima de tudo o que eu sou  patriota. Rpblica ou
Monarquia tanto se me d; o que  preciso  haver quem nos governe. Boa
noite!


Havia lua cheia.

Anselmo antes de se ir deitar sau para o terrao da casa a respirar um
pouco,  vontade. Arrotou. As sardinhas vieram-lhe  bca.
Murmurou arreliado:--A mania de comer a esta hora h de acabar.

O arzinho do campo, porm, reanimou-o, fez-lhe bem, descongestionou-lhe
o rosto afogueado.

Sentou-se num banco,  fresca, de colte desabotoado e a fumar.

De dentro, atraves duma janela aberta, a voz de D. Ermelinda vibrou
esganiada:

--Anslminho, olha a bronquite!

No respondeu. A noite estava um encanto! Um luar muito claro punha em
relevo as silhuetas da paisagem larga, beira, de vegetao sombria e de
penedia hirsuta. Os ces ladravam na quinta. Milhes de estrelas
scintilavam no cu opalino, levemente ofuscadas pela alvura do luar...

Murmurou, regalado:

--E  que j daqui no saio, emquanto a coisa se no decidir...


A 5 de Outubro estava a Rpblica definitivamente proclamada em
Portugal, sabendo-se da nova em Nagosa quando o vinho de Anselmo
comeava a ferver nas dornas.

De tarde Anselmo foi  lagaria para calcular com a vista a importancia
da colheita. Bem boa! Sabia-se que em Moimenta os rpublicanos tinham j
iado na casa da Cmara o pavilho revolucionrio; ia um delirio na
populao. E o brazileiro de Cabaos deitra meia dzia de foguetes que
se viram perfeitamente de Nagosa subir e estalar no ar, deixando uns
novelos de fumo branco, por momentos, no azul do cu e no oiro vivo do
sol outonal.

Anselmo debruou-se sbre o lagar, farejou o msto, teve um sorriso
feliz de proprietrio favorecido, e chamando o caseiro:

-- Jose, o vinhito ste ano parece-me bom, hein?

--Parece que sim, meu padrinho...

Era afilhado.

--A uvazita fundiu... dizias que no.

--Houve mais que eu sei l!

--Pois sim, mas...

No concluiu, no explicou o que queria dizer na sua.

Tirou do blso a tabaqueira, um livrete de mortalhas; ofereceu uma na
ponta dos dedos ao afilhado; deitou-lhe na palma da mo calosa duas
pitadas de tabaco francs; limpou depois le prprio as mos sujas do
rebordo da dorna a que se agarrra, a umas palhas que ali topou a geito,
e ps-se a fazer um cigarro, trauteando a _Portuguesa_.


O primeiro desgosto srio que le sofreu depois da Rpblica, foi com a
_lei da Separao_.

A mudana de regimen, como Anselmo a entendia, resumir-se-ia a abolir a
realeza, causa imediata e suficiente de quantos cataclismos e desgraas
assoberbavam ste pobre pas. O resto era p, ou melhor, era dio,
vingana, perseguio, fanatismo. Impressionra-o bem, ao comeo, o
facto de serem os prprios miserveis, os pobretanas, os maltrapilhos,
quem guardra, nos dias da Revoluo, os bancos e as casas da gente
endinheirada. Mas a questo da bandeira, logo a seguir, a picuinha de
substituirem as antigas cres constitucionais pelo vermelho e pelo
verde (h quem diga que Anselmo sublinhava a palavra _verde_ com
inteno maliciosa; talvez) comeou a indisp-lo, a irrit-lo. De mais a
mais havia gente insuspeita a condenar as novas tintas! E os olhos
sinceramente se lhe arrasaram de lgrimas quando viu tremular no
edificio da cmara municipal da sua vila (da sua vila!) o hediondo trapo
republicano.


Aos primeiros dias de harmonia e de entusiasmo comearam a suceder-se no
pas, pouco a pouco, outros, menos tranquilisadores e festivos.
Tinham-se efectuado prises, demisses; surgiam ali e aqui desacordos,
antipatias, notas desafinadas no geral concerto; havia descontentes;
principiava a falar-se vagamente de conspiradores. O capito Paiva
Couceiro sara para Espanha, agressivo, no intuito de organisar um
exrcito restaurador da monarquia. Os padres, dizia-se, tinham o povinho
ignorante das aldeias na mo, e era s dizer-lhe:--Vamos! tudo
marcharia  uma sbre as cidades e da sbre Lisboa, engrossando,
rolando, com a fra duma vaga e o barulho dum trovo!

O Govrno Provisrio, sorrindo desdenhosamente, tomava no emtanto as
suas medidas de defeza, ordenava prevenes rigorosas nos quarteis. As
redaces dos jornais monrquicos eram assaltadas por magotes de homens
armados e colricos que partiam o mobilirio, empastelavam o tipo,
espatifavam as maquinas de impresso, pondo tudo em fanicos, pelas
janelas, no meio da rua.

E foi numa altura destas, num estado assim de insubordinao e de
efervescncia, que o govrno se lembra de perseguir os bispos!

Anselmo indignava-se:

--O pas  catlico, dizia, o pas  catlico e no pode permitir
semelhante arbitrariedade!  um atentado contra a religio de cada um.

Algum lhe ponderou que no, que o govrno no pensava em perseguir
ningum; que no era sse o esprito da lei; que o Estado o que no
devia era apadrinhar esta ou aquela religio. Eu mesmo, Teotnio
Mendes, republicano hereditrio, apoiei com certa autoridade e
firmsa estas sensatissimas explicaes.

--Cale-se! vociferava le, exaltado, dirigindo-se-me; cale-se, que no
diz se no asneiras. A Rpblica tem de ser tolerante se quizer viver!
Os jacobinos, os carbonrios como o senhor, no conseguiro por mais que
se esforcem abafar os protestos da opinio pblica; e a opinio pblica
est abertamente com a Igreja. Com a Igreja, fique-o sabendo!

Todos nos calvamos. Anselmo limpava a fronte donde o suor porejava.

--Pdem-me prender, se quizerem, que eu direi sempre a verdade. A
verdade  s uma!

E cheio de provas, revoltado:.

--Admite-se l que se tire assim o po a tanta gente, que se lance na
misria tanto portugus, tanto padre com mulher e filhos... perdo
(emendava): com famlia numerosa.

Em volta houve um silncio aprovativo.


Tudo mudra, na verdade...

Um dia, Anselmo andava passeando na farmcia, as mos atrs das
costas, a meditar no futuro do pas. O barmetro marcava tempo sco--e
l fora chovia! A _coluna_ indicava uma temperatura alta, e Anselmo
tinha a certeza de que era falso. Aquilo queria dizer que andava tudo s
avessas, que ningum se entendia neste pas, que a indisciplina
reinava--at no tempo!

No havia doentes: h 15 dias que o movimento farmacolgico era
insignificante. Assim, a prpria ociosidade colaborava nos
acontecimentos, gerando nos crebros ideias insubmissas...

--V. Ex.  que  o sr. Anselmo Nogueira?--perguntou a meia voz um
desconhecido que entrou, descobrindo-se.

--Eu mesmo em carne e osso. Ponha o seu chapu. Que deseja?

Mas logo, reconsiderando, medindo-o, fez p atrs como quem desconfia do
sujeito e se prepara para se pr a salvo, no caso de perigo.

--No se assuste, disse-lhe o recem-chegado, observando aquele
gesto,--eu no sou quem pensa... pelo contrrio.

--Ah!

--Sou dos _fieis_. Trago-lhe aqui uma carta da Galisa...

E levou a mo ao blso. Anselmo segurou-lhe no brao, palido:

-- diabo, espere... espere l, tome cautela.

E foi  porta espreitar. No havia ningum. Chovia.

--Tem a bondade de entrar ali para dentro, indicou.

E encostando a porta de vidro fsco do laboratrio:

--Estou s suas ordens, pode falar... Estamos ss.

Todo le tremia.

O outro entregou-lhe a carta em que lhe pediam dinheiro para uma prxima
incurso e lhe perguntavam se poderia auxiliar, a coberto da sua
seriedade insuspeita, um pequeno contrabando de armas: pistolas e
munies. Assinava a carta, em nome de Paiva Couceiro, um amigo da
Religio e da Ptria.

Anselmo gaguejou:

--Sim... sim... dinheiro, talvez, mais adiante... Agora as pistolas,
desde j lhe digo, meu caro sr., que as pistolas no... Escusam de
contar comigo para semelhantes aventuras. A minha casa  muito
freqentada, tudo meche e remeche... no h esconderijos...

--Nesse caso...

--Nesse caso, o melhor  ir bater a outra porta. Do meu lado podem
contar apenas com o apoio moral.

O desconhecido ia retirar-se desanimado. Anselmo deu-lhe uma esperana;

--Ah! olhe: e estricnina e sal de azdas,  descrio...

O enviado sorriu, agradeceu, despediu-se.

--Diga-me c, inqueriu ainda Anselmo interessado, com a mo dle
apertada,--o nosso Paiva Couceiro como ficou?

--Bem.

--E o rei, tem-no visto?

No o tinha visto. Estava em Londres.

--Coitado! aquele tambm... Quando calhar, d-lhe l muitos recados
meus, sim?

O indivduo misterioso prometeu, sau da botica.

--Oia, oia! A Ermelinda, minha mulher, tambm se recomenda. E  D.
Amlia. Diga-lhe que c os esperamos a todos, muito brevemente.

Fez-lhe uma mesura aparatosa:

--Meu caro senhor...


Uma vista de olhos, rpida, furtiva, pelas janelas dos prdios
fronteiros, a ver se algum teria dado pela visita, e tornou ao
laboratrio, ruminando o caso, arreliado por se ter esquecido na
perturbao que o invadira, de perguntar o nome do tipo. E a gente s
vezes a supr que ningum nos conhece, que no consta, que se no sabe
l por fra! Ai Anselmo, ai Anselmo!...

Tirou do blso a carta comprometedra, levemente amarrotada; acendeu um
fosforo e ali mesmo, antes de outra coisa, queimou-a, com prudncia,
reduzindo-a a cinzas.

O documento!

Nisto, uma mulherzinha entrou na farmcia, a correr, sem chaile, a
pedir linhaa para o sr. administrador que estava a morrer com uma clica.

Anselmo estremeceu. Para o sr. administrador? Fingiu que ia servir a
mulher, e de repente:

--Oh co'a breca! esta agora! no tenho linhaa.

--No tem linhaa?!

--No tenho. Acabou-se-me.

--E agora?

--Agora... deve chegar amanh.

--Amanha! Amanha pode o homem estar no outro mundo!

Anselmo sentiu que as pernas se lhe vergavam quela ideia homicida; ia
trair-se, no podia mais.

--No outro mundo?!

--Sim, no outro mundo; se o sr. o visse!

Anselmo, porm, num abrir e fechar de olhos, raciocinou: mas se ste 
dos tais que a monarquia no poupa quando voltar; se le est fatalmente
condenado pela revindicta... Deix-lo ir j!

--Pois tenha pacincia, santinha; onde no h el-rei o perde...

--El-rei! exclamou a mulher, furiosa, voltando costas, de repelo,--o
que o sr. precisava bem sei eu; no haver linhaa numa terra onde no h
mais boticas!

Anselmo ainda ouviu a mulher a distncia, queixar-se para algum,
fazendo escndalo:

-- ali o boticrio que no tem linhaa; anda s a pensar na monarquia,
o talassa, e esquece-se das obrigaes...

O epteto de talassa custou-lhe os olhos da cara; mas emfim, tudo eram
sacrifcios pela Causa. Mais tarde havia de saber-se e os juros
viriam--se viriam!--com larga usura e gratido...

--Talassa! Talassa!...--gritava a mulher.

--Pois sim...


A incurso falhou. Pela raia, em Vinhais, bandos de malfeitores
assalariados tinham tentado um simulacro de luta contra a
existncia do novo regimen. Fugiram. A notcia do fracasso voou
por todo o pas com rapidez. Anselmo soube-a de manh, na cama, pela
criada, e j se no quis levantar. Adoecera. Queixou-se de arrepios,
gemeu, disse  mulher que mandasse vir o mdico.

--E para a farmcia, quem vai?

--Vai a senhora, rosnou, de mau humor.

E abafou-se na roupa.

O mdico veio e receitou: era intestino. Como republicano, falou do
caso. Anselmo, mordido de curiosidade, desejou conhecer toda a aco nos
mnimos detalhes: quantos eram, quem vinha, quem comandava e por ltimo,
convencido da derrota, da inanidade daquele esfro ridculo, perguntou:

--E dos _nossos_, quem foi?

--Dos nossos?! interrogou o mdico, sem perceber.

--Sim, dos rpublicanos: quem  que o govrno mandou a correr aquela
tropa fandanga a ponta-p?

O mdico, que era um homem distrado, respondeu com indiferena:

--No sei; creio que ningum; nem se pensou em tal, ilustre
correligionrio...


 tarde, Anselmo poude sair. No tinha febre. O intestino desatou a
funcionar melhor e nem foi preciso medicar-se.

--Mas que ideia aquela, dizia le, no club, a uma roda de amigos
embasbacados,--que ideia aquela da restaurao! So doidos!... A
Rpblica tem, no h dvida, alguns defeitos, sou eu o primeiro a
reconhec-lo; mas tirem-se-lhe! O que todos devemos fazer  trabalhar
para que as novas instituies sejam aquilo para que as cremos.--No 
isso, Teotnio? rematou, voltando-se para mim, que o escutava transido.

E com descaramento:

--Voc tem-me ouvido muita vez dizer isto mesmo; voc sabe que eu j no
tempo da monarquia era tanto ou mais liberal do que voc, que se tem por
histrico.

Eu, moita.

--Voc no fala? no diz nada?

Afastei-me prudentemente. Notei que ia rebentar de indignao
contra aquele farante; mas ao mesmo tempo sentia--como sentamos todos
alis, diante dle--que nem que fizesse ou dissesse o dbro do que dizia
e fazia, algum de ns teria a coragem de o desmentir!


Assim se consumou pois a adeso solene do sr. Anselmo a Rpblica. Tudo
o que veio a seguir, grves, intentonas, zaragatas, a incurso de
julho... tudo, numa palavra, encontrou-o j pela frente, to decidido e
jacobino, ou mais ainda do que aqueles que se gabavam de o ser. Logo que
se organizaram os partidos, Anselmo filiou-se nos _democrticos_. E o
dio ao padre, o horror ao padre, a fobia do padre obcecava-o de dia e
de noite.

Uma vez, um dos ministros foi a Vizeu: pespegou-se l, com o Teotnio e
o administrador (aquele administrador que le quis matar) e o Menezes
jornalista, que tambm j era _democrtico_. Assistiu ao jantar, fez um
brinde condenando o Clero, sse Clero infame a que pertencra, no se
sabe porque caprichos da sorte, o clebre, o liberalssimo bispo daquela
terra!. Falou depois de Viriato, e terminou com um viva  Rpblica que
atroou o vasto recinto do teatro onde o banquete se realizava.

O ministro, sensibilisado, ergueu-se para agradecer. Discursou
pausadamente durante 20 minutos, empunhou a taa por fim, e pediu a
todos que o acompanhassem e bebessem  sade de Anselmo Nogueira,
figura prestimosa da Rpblica, homem de bem s direitas, livre
pensador e companheiro fiel dos tempos da propaganda.--Hip! hip! hip!
Hurrah!.

As taas tilintaram. Anselmo, carregado, chorou. E Teotnio, batendo com
a mo no ombro do administrador de Moimenta, segredou-lhe:

--L intrujou o ministro, o patife! Companheiro fiel dos tempos da
propaganda, ouviste? Que desafro!

O administrador comentou:

--E livre pensador, filho! Parece que o estou ainda a ver de lanterna e
de opa na procisso do Senhor dos Paos! O que  o mundo!...

Eu puz-me a considerar, palitando os dentes.

--Ento e ns? indaguei por fim, despeitado.

--Ns? ns? Essa agora! Ns no saremos nunca da cpa torta, meu
velho... Este Anselmo, ste farmaceutico, que ali vs recostado numa
cadeira,  o modelo do poltico portugus. Maioral no tempo da
monarquia, maioral se vai tornando dentro da Rpblica. Era de esperar!
Pois se os monrquicos  que prepararam isto com os seus erros, se les
 que deitaram a monarquia a terra, no achas justo que quem plantou a
vinha pense tambm agora em comer os cachos?...

      *       *      *      *      *




Candidinha Cerdeira


(Novela romntica)




Candidinha Cerdeira


(Novela romntica)

    Pasmei, como a gente pasma at certa idade, das maravilhas que se
    fazem no corao das raparigas.

                                                            CAMILO.

Em casa da D. Leonor, viuva do juiz Cerdeira,--que era irmo do afamado
cnego Amorim Cerdeira, vigrio geral na diocese d'Angra--falou-se muito
toda essas noite na vinda do novo professor do liceu.

Chamava-se Hiplito e trouxera a irm, Alzira, rapariga loira que usava
uns chapeus enormes e punha beladona detrs das orelhas para fazer os
olhos bonitos...

Era uma excntrica. A histria da vida e obras de certa princezinha
otomana, filha dum velho imperador de Constantinopla, extravagante
at  loucura em matria de garridice, lida num volume que o irmo lhe
emprestra, p-la em termos de aspirar a utopias: desejaria banhar-se
num lago d'aguas perfumadas, ungir o corpo d'leos aromticos, ter um
jardim suspenso e uma multido de escravas que fossem todas as manhs
colher o orvalho das flres... para ela refrescar o rosto.

Custra-lhe imenso a deixar Lisboa e vir assim encafuar-se numa
aldeia,--porque era positivamente uma aldeia aquele feio e triste burgo
d'aspecto desolado e montono, onde no conheciam ningum.

Emfim, para quem trazia os nervos combalidos dos sobressaltos e
incertezas das grandes horas da Revoluo, aquilo at certo ponto
convinha. Tinha amenidades de paraiso a paz pdre, o sossgo vegetativo
e pacovio daquela terra pequena, com sua vida imutvel, seus hbitos
conservadores e sedentrios, um modo bisbilhoteiro de vir s portas e s
janelas espreitar, e certo _centro_ palreiro de maledicncia e poltica,
que logo lhes disseram ser ali a loja do _amigo Palma_.

Quem ps a cidade ao par de toda a biografia do professor e da irm foi
o Malafaia, o grande bacharel Malafaia, de quem o dr. Marim, mdico do
partido, dizia: --ste no se formou: formram-no...--Conhecia-os de
lhe terem sido apresentados h anos na Figueira da Foz. Alzira
confessou-lhe agora, quando os visitou, que gostava muito da cidade.

--O qu! srio?

Srio. Dava-se bem com os ares, que eram puros, saudveis, e com a gua,
magnfica! Apenas uma nica coisa a contrariava devras: ter de viver
num hotel..

Malafaia reconheceu que havia em todas aquelas referncias uma pontinha
de malcia.

--No hotel? disse.--E porque  que V. Ex.^as no arrendam uma casa?

--Porqu? Ora essa; o doutor nem conhece a sua terra... Porque as no h!

Rialmente no as havia. Que aborrecimento!

--Eu no sei o que os senhores fazem ao dinheiro...--tornou Alzira,
achando mle e carregando.

--Tambm o no h...--respondeu o bacharel.

Todos riram com a resposta. O professor declarou no emtanto achar-se
resignado, contente... Apesar dsses pequenos defeitos--e qual era a
terra que os no tinha?--aquele meio era delicioso.

--S esta pacatez!...

E abeirou-se da janela, encheu os pulmes do ar puro que vinha das altas
montanhas distantes.

--Quer saber? murmurou,--minha irm, a primeira noite que aqui ficmos,
no conseguiu pregar lho...

--Ento? Porqu?

--Por causa do silncio!


D. Leonor vivia com a filha, Maria Cndida,--a Candidinha--que andava
agora nos dezoito anos e ainda engatinhava quando o pai morreu de
congesto cerebral. Reunia aos sbados. Iam quase sempre o juiz da
comarca e a mulher; o sr. Xavier--o _Xavier das massas_--solteiro
abastado e artrtico; o dr. Marim e s vezes uma D. Josefina, tambm
viuva, que fra operada por le duma doena d'tero. Tudo gente de
idade. Maria Cndida aborrecia-se daquela vida. A me andava sempre a
dizer-lhe:

--Que cara que tu trazes, rapariga! Nem parece que te lus o que comes.
Endireita-te! Que h de dizer a outra gente.

O dr. Marim tinha um facataz pela pequena. Achava-a esperta,
interessante, em tudo revelando um carcter diferente da vulgaridade.
Dedicra-se-lhe por isso com um entranhado amor de pai, em certas
ocasies surpreendendo-se a cham-la, a acarinh-la como se ela
rialmente fsse do seu sangue... Tambm, a cachopinha, logo de tenra
idade correspondia quele amor; e quando o mdico, a brincar, lhe
perguntava se queria ir com le, fugir da me para longe, a petiza
saltava-lhe ao pescoo, a cobri-lo de beijos, sem dizer palavra,--l no
fundo a desejar que le a levasse... D. Leonor sorria; intimamente
porm desgostava-se. Desenvolveu-se  pressa, espigou dum dia para o
outro, Maria Cndida. Todos diziam:--Est uma senhora! E deu ento em
andar triste, murchita, nervosa, a ponto de a me se alarmar,
perguntando ao mdico o que seria. O mdico ria-se, receitava:

--Banhos... gua p'ra cima daqueles nervos! E deixe-a sar, no a prenda
em casa, que estas idades querem sol...

Maria Cndida tinha-lhe dito um dia:

--A mam quer-me para freira, no h dvida. Tem medo que eu saia,
probe-me que chegue a uma janela, no me deixa mecher se no nos livros
do tio Cerdeira, que so todos em latim.  pior!

O mdico ficou a ruminar a gravidade daquele comentrio;  pior!;
distraindo o olhar pela variada, profusa, quase incongruente decorao
da sala, onde D. Leonor recebia aos sbados. A rapariga tinha raso:
educar, pensava le,  formar seres conscientes, livres, no  torcer
aptides e tendncias naturais por forma a amold-las ao prprio
interesse de quem educa. Dizer a algum: has de ser isto ou has de ser
aquilo, porque eu quero, porque convm, porque  assim, e no admitir
sequer que sse algum raciocine, ou sinta, ou queira doutro modo,-- um
absurdo. To grande como se uma pessoa que tivesse fome em dado momento,
exigisse dos mais, no mesmo instante, a mesma vontade de comer...

O mdico, por fim, demorou os olhos sbre um enorme quadro exposto numa
das paredes do fundo, que representava um trecho de paisagem oriental:
palmeiras, filas de camelos pensativos e gibosos; e um beduino
barbingro, prosternado, osculando o solo poeirento, onde poisra o
cajado de larga crossa e as babuchas de palha de arroz...

O dr. juiz nunca via aquilo que no exclamasse:--Lindo!--e encavalava a
luneta para ler o nome do autor, que lhe esquecia sempre.

Maria Cndida sentou-se ao piano. Imprimia ao que tocava um movimento de
embalo, vagaroso e triste, que tanto podia traduzir a influncia
duma vida pendular, claustral e montona, reflectindo-se-lhe nos
sentimentos, como a aspirao vaga e inquieta duma alma que procura no
ritmo da msica o ritmo do vo...

Conheceu Hiplito num domingo,  sada da missa, onde o professor fra
acompanhar a irm. Malafaia, que aparecia em toda a parte por um
maravilhoso dom de ubiqidade, mal os avistou, fez as apresentaes.

D. Leonor no gostou. Aconselhra-a o sr. Xavier que no quisesse
relaes com semelhante gente: gente de Lisboa, sabe? uma educao
muito livre. E torceu o nariz, fez o gesto vago de quem prev calamidades.

Durante a missa Maria Cndida notou que o professor a fitava com uma
curiosidade insistente. Tinham ficado todos, casualmente, em cima, no
cro. Atravs dos balastres ela via o padre ao fundo, oficiando; e
atrs, enchendo a comprida nave, o povinho das aldeias que vinha aos
mercados semanais.

Hiplito ficra junto de Alzira, que trazia como sempre um chapu
escandaloso, e observava os menores gestos de Maria Cndida. Viu-a abrir
o livro, persinar-se, bater no peito devotamente quando o padre
consagrou a hostia e ergueu o clice e, no silncio religioso da igreja,
o som da campainha vibrou, duas vezes, com solenidade e cadncia.

Um raio de sol filtrou a sua luz pura por uma das altas janelas da nave
e foi refractar-se nos pingentes dum lustre de cristal pendente da
abboda, incidindo por fim, j irisado, no cabelo, nas faces, no manto
azul duma Senhora das Dres, que chorava no altarzinho duma das capelas
laterais... Maria Cndida resou-lhe uma orao fervorosa e a Virgem
pareceu sorrir por entre as lgrimas, agradecer, no seu banho de luz--no
que Maria Cndida viu um sinal de bom agoiro...


Quando lhe apertou a mo, c fora, e a poude observar  claridade crua
do meio dia, perto de si, Hiplito ficou encantado. Era o tipo sonhado,
indito, da beleza inculta, da simplicidade provinciana. Tinha na fala
o sotaque da pronncia beira, autntica, sibilante de _ss_; e
nos olhos um ar assustadio, implorativo e meigo, de herbvora.

A caminho de casa, Alzira disse ao irmo:

--Se um dia te desse para o casamento, gostava que casasses com uma
rapariga assim...

E le:

--Quem havia de dizer que numa terra destas!...


D. Leonor guardava a filha como um dia santo. No a votava decerto,
estrilmente, ao celibato, mas reservava-lhe um destino a seu gsto. No
a tinha trazido no ventre? No a tinha criado, educado, sofrendo por ela
penas e reveses? Sabe Deus!

--Quando se tem a tua idade, prgava-lhe, no se pensa, no se reflecte,
deixa-se a gente levar pelas aparencias; mas depois... Teu pai, quando
casmos, no tinha vintm,--e diziam que era esperto... Ao princpio
vi-o muita vez a chorar, a arrepelar-se, a pensar em morrer. De que lhe
servia a esperteza? Serviu-lhe mas foi o irmo, que era um homem de tino
e de fortuna, com amigos a valer que lhe arranjaram o despacho...

Maria Cndida escutava sem retorquir. Percebra que a me queria cas-la
com o Xavier.--O Xavier! Um velho! um antiptico que usava meias de l
speras como urtigas, que desabotoava o colete depois de jantar e,
sobretudo, que podia ser av dela! Metia-lhe horror e repugnncia tal
ideia. Nunca! Nem que tivesse de ficar solteira, como as tias de
Freixinho...

Uma amiga do colgio--a Matso--tinha-lhe jurado que o professor andava
com boas intenes; que aquilo no era um passatempo; que lhe afirmra o
Malafaia--sabes? o Malafaia que agora me faz a crte...--que o casamento
era infalvel.

Ela punha-se com evasivas:

--Pois sim... Eu ento j ouvi dizer que era comtigo...


Entretanto o namro progredia. No era segrdo para ningum que se
carteavam e que tinham entrevistas do mirante do jardim. Em toda
a parte se comentava isto: a paixo do professor do liceu e da
Candidinha Cerdeira.

E amiudava-se o caso, referiam-se pormenores excitantes. Havia quem
tivesse visto o professor, feito Romeu, trepar por uma escada de corda
para o muro do quintal! Mra inveno, claro. Mas o Matos do govrno
civil tambm vira--porque via sempre tudo e jurava ser verdade por duas
filhas que l tinha em casa.

D. Leonor deu conta que Hiplito lhe passava repetidas vezes  porta,
que se pespegava horas e horas no estabelecimento da esquina a olhar
para as janelas. Estremeceu de angstia! Deu terminantes ordens  filha,
que passou a habitar os aposentos interiores do prdio. O sr. Xavier
tinha-lhe abertamente declarado, submetendo-se a tudo:

--Arranje a sr. c e chame-me quando fr preciso...

Era o momento!

Mas, sendo mulher, fraca, portanto, e irresoluta, quis estribar-se na
opinio do mdico, pessoa tambm da sua inteira confiana.

--A minha opinio? disse-lhe le.--Mas algum tem que dar para a a sua
opinio?

Ela encarou-o com espanto, sem compreender.

--Entendo que um casamento deve ser feito  vontade dos que se casam,
explicou o mdico.--Casam bem? casam mal? L  com les...

--Perdo, interrompeu a viuva.--Eu, que sou a me, tenho naturalmente
que intervir dalgum modo na orientao, ou na escolha...

--Conforme, minha sr., conforme... Se se trata apenas de orientar, de
dirigir a sua filha nsse passo, est bem; mas propriamente a _escolha_,
 a ela s que pertence. Os filhos no so--como muita gente pde ainda
erradamente presumir,--uma legtima propriedade dos pais... Os filhos
so pessoas independentes, com direitos, com atribuies...

--De maneira que o doutor condena a minha atitude? Entende que eu devo
desinteressar-me por completo do futuro da minha filha?...

--Por completo!? Mas quem pensa nisso? Por completo, no, evidentemente...

--Bonita doutrina, no haja duvida, murmurava D. Leonor sem o ouvir,
fula, mordendo o beio, batendo nervosamente com o leque no joelho,
repetidas vezes.--Casa-te, casa-te p'r'a, rapariga, com o primeiro que
te aparea... Haviamos de v-las bonitas, se assim fsse!...

O mdico desistiu de discutir.

--Bem! rematou, erguendo-se,--para terminar: quer V. Ex. um conselho,
um conselho de amigo, de pessoa que conhece um bocado a vida e que tem
levado muito ponta-p e aprendido  sua custa o pouco que sabe? Quer?

D. Leonor no respondeu.

--No obrigue sua filha a casar com semelhante homem.

--Ora essa! Com quem quer o doutor ento que ela case?

--Sei l! Mas naturalmente com quem ela quiser...

E ps termo.


D. Leonor no desanimou. A manobra do casamento com o velho seguiu seus
trmites. Na cidade a indignao era geral. Para mais havia constado a
scena da entrevista com o mdico, as suas discordncias, o ligeiro amuo
subseqente...

--Vbora! vbora! dizia-se.--O dr. Marim bem a conhece...

E formulavam-se as piores insdias: que o ilustre Xavier era amante da
D. Leonor e que impunha agora o casamento com a filha sob pena dum
escndalo.

Havia quem gostasse disto, havia quem no gostasse; a maioria dizia:

-- bem feito! aquilo no se faz...

No cmulo da revolta, Malafaia, em verdadeiros comcios nas lojas,
lembrava que era preciso salvar aquela criana custasse o que
custasse... E com teatral entono, instigava:

-- preciso ir l (fazia o gesto de quem aponta uma Bastilha) arrombar
as portas e pr a infeliz no lho da rua!

A coisa estava neste p.


Certo dia o dr. Marim recolhia a casa, cedo, para almoar. A criada, uma
velha servente encarquilhada e sca como uma casca de noz, a coxear da
scitica, disse-lhe, mal le se poz a desdobrar o guardanapo:

--Ento, j sabe? A menina Candidinha parece que j no casa com o sr.
Xavier. Est desfeito.

O mdico teve um gesto de mau humor irreprimivel:

--L esta voc! Todos os dias novidades! Quando  que esta criatura se
cansar de dar novidades?

E desatou a rilhar o bife sem vontade. A velha rodou sbre os
calcanhares, sau da sala.

--Pois  tudo cheio c na cidade, insistiu quando voltou.--A menina
julgo que sempre confessou...

--Confessou o qu, mulher?

--Olha o qu! O que j corria: que  amante do professor...

O mdico ergueu-se de golpe, lvido, transfigurado, fazendo
recuar at  porta a pobre velhota espavorida de o ver assim:

--Crdo! santo nome de Deus! mas que tem? murmurou, supondo que o mdico
fra acometido de loucura.

--Voc ouviu isso?

--Ouvi, sim senhor.

--A quem? Aonde? Diga.

--Por a, diz-se em toda a parte;  tudo cheio...

le levou ambas as mos ao crnio. Esteve assim, sem se mover, sem dizer
palavra, por espao de alguns minutos. Depois arremessou o guardanapo,
empurrou a cadeira, pediu o chapu e a bengala para sar--e sau,
deixando a mulher boquiaberta, sem perceber coisa nenhuma.


Quando, uma ou duas horas depois, subia as escadas da casa de Hiplito,
o dr. Marim ia cabisbaixo, taciturno, como se uma grande dr o tivesse
trespassado mortalmente.

Estivera com D. Leonor que lhe confirmou entre recriminaes e prantos a
tremenda nova da desonra da filha. Fra ela, a dissimulada, quem
se denuncira--com um descaramento, uma serenidade, um cinismo, calcule
o doutor, que deixava a perder de vista as maiores desavergonhadas da
terra! E era sua filha! D. Leonor no sabia dizer como se contivra e
porque a no estrangulra... Sua filha, tinha dito? No! Maria Cndida
morrra! Essa que ainda ali conservava, a dentro do seu lar, por uns
restos de comiserao, mas que nunca mais quereria ver, no era sua
filha: era uma mulher perdida!

E o sr. Xavier? Ah! sse ento, coitado, tinha ficado como morto.
Compreende-se... Porque Maria Cndida levra a sua audcia at ao ponto
de dizer tudo diante dle, diante das criadas e dos convidados,--era um
sbado--alto e bom som, para que no se perdesse pitada: A me queria
casa-l com o Xavier das massas, por dinheiro; pois bem, ela afirmava
ali terminantemente que no casaria: primeiro, porque o detestava;
segundo, porque tinha um amante, o professor!

--Veja o meu amigo, agora, o que foi fazer! comentou o dr. Marim,
voltando-se para Hiplito, a quem acabava de expor a situao com esta
nitidez.--Que cabea a sua! Que responsabilidades!

Hiplito sorriu ligeiramente, murmurou:

--At que ponto nos podem levar os desvarios do amor, doutor, no  assim?

-- assim mesmo, concordou o mdico.--Mas um homem nunca tem nada a
perder com estas coisas; agora uma rapariga!...

--Perde tudo.

--Sim, tudo!

Houve um silncio.

--O sr. no andou bem, Hiplito, confesse, no andou bem...

--Eu?...

-- claro.

--Na sua opinio, pelo menos, doutor... J me cheguei a convencer de que
sou rialmente um canalha... pois que como tal procedo...

--Leviandades, leviandades...--atenuou o mdico.--Eu habituei-me a ver
em Maria Cndida uma espcie de filha, desde muito nova. No
admira. Tive-a nos braos quando nasceu, pequenina, vi-a depois medrar,
crescer, fazer-se mulher  minha vista--afeioei-me. Que quer?
Emfim...--limpou uma lgrima que lhe rolou ao comprido da face--coisas
da vida!

Depois, apreensivo:

--O sr. o que pensa fazer agora?...

Hiplito ficou sem responder, um bocado, com o esprito absorvido num
pensamento cruel e longnquo, que o fazia empalidecer.

--Vou confiar-lhe um segrdo, disse, por fim, numa resoluo
firme.--Devo-lhe muitas atenes e custar-me-ia sinceramente que o
doutor ficasse formando de mim um conceito menos lisongeiro...

--Fale, meu amigo, fale, disse o mdico ancioso por o
ouvir.--Prestar-lhe-ei, creia, toda a ateno. Fale...

Hiplito hesitou; aprumou-se, procurando dar s suas palavras um tom
solene, de grande sinceridade.

--Maria Cndida no est culpada; Maria Cndida no , nem nunca foi
minha amante!

--Que me diz?!

--A verdade! Maria Cndida  to virtuosa, hoje, to pura e imaculada
como na hora em que pela primeira vez a encontrei. No me acredita?
Juro-lhe.

O mdico fitou-o, desconfiado, surprezo.

--Conhece esta letra? disse Hiplito.

E colocou-lhe diante dos olhos um papel cuidadosamente retirado da
carteira.

--Conheo.  a letra de Maria Cndida.

--Pois . Leia!

O mdico obedeceu. E quando terminou, os olhos arrasados de lgrimas,
deixou-se car sbre uma cadeira, p'ra ali, varado de espanto.

-- assombroso!

Hiplito arrancou-lhe das mos, trmulas pela comoo, a carta, cujo
final releu em voz alta: ... Pois bem. Afirmarei, ou darei a perceber a
todo o mundo que sou tua amante; dste modo nenhum outro homem me
querer...

-- assombroso! repetia o mdico estonteado.--E  uma criana!  uma
criana que faz disto!...

Emquanto Hiplito, a chorar, concluia:

Se me desmentes... mato-me. E tu bem sabes--sim, tu bem sabes!--como eu
sou capaz de cumprir fielmente o que prometo...

      *       *      *      *      *




Eureka!




Eureka!

    "--Je vous demande pardon: vous tes bien monsieur Boubouroche?"

                                                         COURTELINE.


ACTO I

    _No escritorio dum advogado._

O CLIENTE

Chamo-me Teodorico da Silva, negociante, com estabelecimento de bebidas...

O ADVOGADO

Sim senhor. Faz o obsquio de sentar-se.

O CLIENTE

O meu caso  simples, conta-se em breves palavras. Sou casado, e minha
mulher... minha mulher engana-me, descaradamente, com o primeiro
caixeiro da casa.

O ADVOGADO

 ento uma aco de divorcio que o senhor deseja intentar?...

O CLIENTE, _presuroso_:

Perdo... Eu ainda no disse a V. Ex. o que desejo. (_Pausa_). Eu me
explico: Sou um homem honrado, nunca roubei nada a ningum, mas sou
tambm um temperamento desgraado, um sentimental, um fraco. No posso,
por exemplo, ver sangue. Para lhe falar com franqueza, nunca na minha
vida--e j tenho cincoenta anos--peguei numa arma! Isto tudo vem para
lhe explicar o motivo porque no matei minha mulher ontem  noite quando
entrei em casa e a vi com _le_, em doce colquio amoroso, mais que
amoroso! sbre um canap de estimao...

O ADVOGADO, _interessado_:

Sim senhor.

O CLIENTE

Ora porque sou um homem honrado, respeitador das leis e dos costumes,
preciso evidentemente dar uma satisfao ao mundo, que seja, ao
mesmo tempo, uma satisfao  minha conscincia. Posta de parte, pois, a
ideia duma soluo violenta, resta-me, claro, essa a que V. Ex. se
referiu h pouco, isto --o divorcio.

O ADVOGADO, _interessadssimo_:

Sim senhor...

O CLIENTE

Mas o senhor no sabe--porque no  casado--o que so vinte e tantos
anos passados com uma mulher...

O ADVOGADO, _impressionado_:

Fao ideia...

O CLIENTE

No. V. Ex. no pde fazer ideia.  tudo a prender-nos, sabe?  a
companhia, as inclinaes, o paladar... Emfim, em concluso, o divorcio
por coisa nenhuma deste mundo.

O ADVOGADO, _cofia a barba e medita apreensivamente no caso_.

O CLIENTE

Pensei ento noutra coisa...

O ADVOGADO, _ancioso_:

Diga!

O CLIENTE

Pensei ento em despedir o caixeiro. (_Sinal de aprovao do advogado_).
Mas aqui outro grave obstculo se levanta! O caixeiro  um antigo
empregado da casa, muito conhecedor do assunto;  le, pde dizer-se, a
alma do negcio! Despedi-lo seria ver fugir a freguezia, ver ir tudo por
gua abaixo... sem apelao!

    _Ficam os dois calados. Ouve-se a respirao alta do cliente, como
    um estertor._

O ADVOGADO, _erguendo-se_:

Pois meu caro amigo, visto isso, no sei; no sei o que deva
dizer-lhe... (_Estende-lhe a mo pesaroso_). O melhor de tudo  ter
pacincia: a pacincia  uma virtude...

O CLIENTE, _desalentado_:

E o mundo? E ento o mundo o que dir? o que dir?

O ADVOGADO

O mundo dir que o meu amigo  uma excelente pessoa, que sua mulher foi
uma ingrata em lhe fazer o que lhe fez...

O CLIENTE, _com uma lgrima a borbulhar ao canto do lho_:

E foi. Palavra de honra que foi.

    _Despede-se abatido._


ACTO II

    _Numa rua concorrida. Mses depois. Ao dobrar a esquina encontram-se
    o cliente e o advogado._

OS DOIS, _ao mesmo tempo_:

Oh!... oh!... Por aqui?

O CLIENTE

Ora ainda bem que o encontro.

O ADVOGADO

Muito folgo em o encontrar...

O CLIENTE, _com o ar alegre, o semblante desanuviado e risonho; sem
rodeios_:

Sabe que achei uma sada admirvel para aquilo?...

O ADVOGADO, _surprso_:

Sim?

O CLIENTE

 verdade. No matei minha mulher, no despedi o caixeiro, no me
divorciei, no tive que ter pacincia... e dei emfim uma satisfao ao
mundo e a mim prprio.

O ADVOGADO, _abismado_:

Devras?!

O CLIENTE

Devras. Lembra-se de eu lhe ter contado como tudo se passou?

O ADVOGADO

Lembro.

O CLIENTE

Que os encontrei em cima dum canap e tal?

O ADVOGADO

Lembro.

O CLIENTE

Pois bem: vendi o movel...

O ADVOGADO

O...?

O CLIENTE

Vendi o canap!!


CI O PANO... DAS NUVENS

      *       *      *      *      *




O crime...


O crime...

    "C'est ainsi qu'une faute est irreparable."

                                    J. PAYOT.

Helena fitou-o ento nos olhos e inquiriu sem motivo:

--Ests zangado?

--No. Porqu?

Insensivelmente voltaram ainda a falar do crime. le manifestou-se
contra aquele processo brbaro, violento, de fazer justia. Todo o homem
que um dia descobre que sua mulher o atraioa, tem um s caminho
racional a seguir: abandon-la.

Helena calou-se.

--Depois, tudo se sabe, tudo, filha!... murmurou le,  laia de
vaticnio.--De que serve andar a encobrir, um dia e outro,
semanas e mses inteiros... se tudo se vem a saber afinal?

Fitou-a demoradamente nos olhos, como a querer avaliar o efeito das suas
palavras. E porque a fitava le assim? Porque comeava a sentir sse
desejo forte, essa terrivel necessidade de a observar, sondando os
mnimos recantos da sua alma, onde pela primeira vez, desde que a
conhecia, notava misteriosos e traioeiros abismos?...

Chamou-a brandamente, disse-lhe:

--Helena, que me ocultas tu? Tenho a impresso de que se passou aqui
alguma coisa, na minha ausncia, que desejas que eu ignore... Ah! no
negues... leio-to nos olhos!

Ela baixou instintivamente a cabea.

--Alguma coisa?!...--disse por fim, em voz pouco firme, esforando-se
por manifestar estranhesa e no conseguindo seno comprometer-se ainda
mais, aumentando aquelas desconfianas.

le tremia todo como varas verdes. Lanou mo da coragem que lhe
restava, para lhe dizer com serenidade:

--Vamos, tu no me tens na conta dum imbecil, no  verdade? Deves ter
presumido portanto que os factos aqui ocorridos, desde que cheguei,
tenham despertado o meu reparo.

--Os factos?! Quais factos?!--dissimulou.

--Tudo; o que se est passando...

--Mas tu ests louco!... Eu  que devo estranhar-te. Nunca te vi assim
desconfiado, acredita.

--Desconfiado! Mas no vs os teus modos, os teus gestos, as tuas
palavras... o teu rosto! Anda c...

Pegou-lhe numa das mos e diante do esplho da sala:

--V a o teu rosto!

Ela esquivou-se, revoltada:

--Deixa-me!  de mais!

--No te deixo, gritou exaltado, j sem se poder conter.--Vais-me dizer
tudo, tudo. Nada de rodeios, de frases, apenas e cruamente a verdade: o
que houve?

--O que houve!?--exclamou aterrada.

--Sim, o que houve!

--Deixa-me! deixa-me!

No poude mais. Agarrou-lhe nos pulsos, arrastou-a para defronte da luz,
intimou-a em voz alta, imperativa, onde havia inflexes de splica e
latejava ao mesmo tempo uma angstia horrvel:

--Fala! anda... diz-me tudo!

Os seus olhos fascavam, tinham relmpagos de clera.

--Larga-me!--implorou Helena.--No olhes para mim dessa maneira... Tenho
medo!

--E porque tens tu medo de mim?!

Aquilo j no era uma altercao, uma scena de ciumes desagradvel, uma
simples desavena entre casados: era uma luta feroz, encarniada, em que
cada qual porfiava por levar o outro de vencida. Apertou-lhe as mos com
energia, de forma a faz-la gritar:

--No, Alberto, no! Tu no ests em ti, deixa-me! Olha que me magas,
deixa-me!

Mal a ouvia j. Os seus protestos, os seus rogos, as suas lgrimas, o
desespero em que se debatia, mais o enfureciam: _quase_ lhe davam provas
do que se passra!... Mas o que se passra?

E baixinho, ao ouvido, como quem insina uma calnia, disse-lhe tudo o
que a sua mrbida fantasia arquitectra a sse respeito, desde que a
suspeita entrra no seu crebro e a gerra a mais tremenda acusao que
podia pesar sbre a honra duma mulher.

Ergueu-se alucinada. Tinha no rosto o aspecto apavorado, trgico, de
pessoa que se v agarrada pelas costas numa encrusilhada deserta. Deu um
grito, abriu os braos e caiu num sof a estrebuchar.

Alberto--nessa perfeita lassitude d'nimo que sucede sempre a uma grande
catstrofe,--ps-se a presenciar tudo, naquele momento, com uma
tranquilidade estupenda! Sentia-se por assim dizer mergulhado num grande
banho morno de indiferena e de tdio...

Helena, debelada a crise inicial, com a cabea entre as mos, chorava,
arrepelava-se. E o marido sorria quela dr como se estivesse gosando as
delcias dum drama de sensao em que sua mulher fsse uma sublime
artista e le prprio, por desdobramento, um actor de mrito,
representando o papel de marido ciumento com a mais pura e
meticulosa arte!

No fundo no aplaudia a pea, mas achava que os artistas iam bem...

Deu uns passos ao acaso e, maquinalmente, dirigiu-se para o quarto.
Voltou, logo em seguida: tinha envergado  pressa o sobretudo e trazia
ainda na mo o chapu e a bengala. Parecia-lhe ter ouvido gritar:
Bravo! Bravo!; que uma multido ruidosa de espectadores se levantava
para sar da sala. Ouvia mesmo os comentrios da pera--porque era
afinal uma pera!--pessoas que passavam, suas conhecidas, que le
cumprimentava e lhe diziam:

--Gostou?

--Muito!

Helena atravessou-se-lhe no caminho:

--Onde vais? Perdoa! Agora que te disse tudo porque  que me no
perdoas?...

S ento deu acrdo de si. Um assmo atvico de ferocidade o dominou.
Viu tudo negro! Agarrou Helena pelo pescoo e chegou a apertar.

--Mata-me! mata-me!--gritou ela.

Largou-a e fugiu. Desceu as escadas a correr. Helena tombra desmaiada
sbre o soalho. Quando se viu no pteo parou. Abriu a porta devagarinho
e uma lufada do ar frio da noite entrou, e fez-lhe bem. Esteve uns
instantes a respirar, a arquejar, at que lhe pareceu ouvir passos.
Desceu ento o ltimo degrau e comeou a caminhar ao longo da rua--sob a
inclemncia do vento e da chuva que caa.

      *       *      *      *      *




Casa maldita


(Tragdia rstica)


    FIGURAS:

    TNIO...........}
    MANOEL..........} _irmos_.
    MARIA JOANA.....}
    FRANCISCO....... _noivo de Maria Joana._
    O MDICO.

    Beira-Baixa, poca actual.


Casa maldita[1]


(Tragdia rstica)

    _Cozinha com lareira numa casa de quinta. Noite d'inverno. Vento e
    chuva desabridos._

FRANCISCO, _da porta, chamando_:

Maria Joana!

MARIA JOANA, _que vem de dentro, do interior da casa, com uma candeia
acsa, voltando-se_:

Crdo! Meteste-me um susto! (_Pendurando a candeia_). Entra!

FRANCISCO, _entrando_:

O pai? est melhor?

MARIA JOANA, _abatida_:

Na mesma...

FRANCISCO

Na mesma?!

MARIA JOANA

Ou pior... sei l! A outra noite j o nem julgvamos. Um febro!

FRANCISCO

Basta que sim.

MARIA JOANA

Sempre a variar... a dizer tolices... (_sente-se, dentro, gemer_).
Ouves? L est...

FRANCISCO

 verdade! Diacho, mas ontem parecia melhor...

MARIA JOANA

Sim, tem disso.--Alembras-te da minha me?

FRANCISCO

Alembro.

MARIA JOANA

No me si da 'maginao que  o mesmo mal.

FRANCISCO

gora!

MARIA JOANA

Um dia melhor, outro pior, t que por fim... (_Comovida_)  o mesmo mal.

FRANCISCO

Ora!

MARIA JOANA

Vers. J d'ali se no ergue.

FRANCISCO

Sabes l bem...

MARIA JOANA

Diz-mo o corao. E olha que para adivinhar...

FRANCISCO, _depois dum silncio_:

Porque no mandam vocs  cidade, chamar o mdico?

MARIA JOANA

P'ra l foi o Tnio  bocado. No tardam a.--Pois que horas so?

FRANCISCO

Oito. Dram agora...

MARIA JOANA, _calculando_:

 isso. Foi com de dia. No tardam.

FRANCISCO, _depois dum novo silncio_:

E que diz o mestre Loureno?

MARIA JOANA

O barbeiro? Olha o que h-de dizer! Que j se no entende com o mal, 
claro.

FRANCISCO

Sangrou-o?

MARIA JOANA

Sangrou.

FRANCISCO

E spois?

MARIA JOANA

Cuidvamos que ficava. Fez-se muito branco, muito branco... os olhos a
encovarem-se-lhe... (_Tpa o rosto com as mos, horrorisada_). Se tu o
visses!

FRANCISCO

Devia ter sido h mais tempo, talvez...

MARIA JOANA, _desiludida, encolhendo os ombros_:

Oh!

FRANCISCO

H quantos dias adoeceu?

MARIA JOANA

H treze.-- mau nmaro, no ?

FRANCISCO

Ora adeus! Fias-te nisso?

MARIA JOANA

Fio.

FRANCISCO, _levemente trocista_:

Esta bom.

MARIA JOANA

Quando a minha me morreu, um co esteve a uivar aqui toda a santssima
noite...

FRANCISCO

Foi o acaso.

MARIA JOANA

A Tereza Bgas casou a filha a uma tera feira e dia treze...

FRANCISCO

Bem haja ela...

MARIA JOANA

Ao cabo dum ano o marido deu-lhe cinco facadas... e matou-a!

FRANCISCO

Milagre fra se a deixsse com vida...

MARIA JOANA

Que mais queres?

FRANCISCO

Nada, co'os dmos: estou 'stifeito. Tira-me essas manias da cabea;
ds em maluca.

MARIA JOANA

Se fsse s isso!... E os palpites? Olha que tenho palpites to certos,
Fracisco, to certos! E sonhos?... Ha dois dias sonhei que antes do
nosso casamento havia de se dar nesta casa uma grande fatalidade...

FRANCISCO, _nervoso_:

Bem; se continas, vou-me.

MARIA JOANA, _rindo_:

Oh! home! julguei que eras mais forte do que isso!...

FRANCISCO

No ; no gsto...

MARIA JOANA

Bem, bonda, no te zangues...--s meu amigo?

FRANCISCO, _amuado_:

No sei...

MARIA JOANA

s, bem vejo.

FRANCISCO

P'ra que mo prcras, nesse caso?...

    _O vento assobia nas frestas, sacode os troncos das rvores, ululando._

MARIA JOANA, _num pressentimento_:

E se eu morrsse?... Casavas com outra?

FRANCISCO

Mau, mau, mau! bem digo eu... Faz favor de te calares, ou ento...

MARIA JOANA

Esta dito. Eu hoje estou assim... No  por mal.--Escuta!

    _Poem-se os dois a escutar._

FRANCISCO

Parece que vem gente...

MARIA JOANA

N.  o vento.

    _Abre-se a porta de repente, com um empurro sco, e MANOEL entra,
    embuado; traz uma velha arma caadeira que coloca a um canto. MARIA
    JOANA, assustada, expele um grito quando o v. FRANCISCO ergue-se
    tambm assustado._

MANOEL, _sorrindo, semblante mal encarado de facinora_:

Meti-vos medo, p'los modos!?... Eu no sou o diabo, socegai!...

MARIA JOANA, _mal refeita ainda do susto_:

D'onde vens tu, home, assim, a estas horas?

MANOEL

Que te importa? Mete-te l com a tua vida! Ora o estapor! (_A
Francisco_) Um cigarro!

    _FRANCISCO oferece-lhe um cigarro._

MANOEL

Ol! ste  dos de cu aberto! Bravo, rapaz, ests um fedalgo!

FRANCISCO

Dram-mos.

MANOEL

S a mim ningum me d raa de nada! Tudo me rouba. Aqui ento, nesta
casa...  tudo deles,--_dessa_ e do outro...

MARIA JOANA

Intrujo! No no acredites, Francisco,  um intrujo.

MANOEL, _crescendo para ela_:

Intrujo? E tu, minha porca? E tu que s?

FRANCISCO, _para o serenar_:

Olha o pai, que ouve...

MANOEL

Quero c saber do pai! Julgas que me consultaram agora para vir o
mdico? Bem te digo eu: isto  deles! No vem c por menos d'uma libra!
Pois ho de les pag-la, se quiserem; nanja eu. (_Beija os dedos em
cruz_). Juro!

MARIA JOANA

Ningum to pede...

MANOEL

Uma libra! Nem que ma arrancassem com uma enx, do peito...

FRANCISCO

Deixa l! Vo-se os aneis mas fiquem os dedos. P'ra mais, livra-se uma
pessoa de remorsos.

MANOEL

Livra!... Livra-se mas  do dinheiro. Eu c digo: quem tem de morrer,
morre. Todos hemos d'ir, pacincia...  a obrigao.

MARIA JOANA

Eu dava a camisa do corpo por ver o pai com sade.

FRANCISCO

Ouves?

MANOEL

O corpo dava ela por menos disso...

FRANCISCO

Manel!

MANOEL, _refilo_:

Que h de novo?

FRANCISCO

 tua irm, bem vs...

MANOEL

Parabns. Olha a princesa!

MARIA JOANA

Desalmado! (_Ouve-se dentro a voz do pai a gemer_). Pai! pai! A vou!

    _Sai correndo._

    _FRANCISCO segue-a at a porta e fica a escutar. Pausa dalguns
    instantes. A chuva bate com frca nas tlhas._

FRANCISCO

Que noite!

MANOEL, _ lareira, pe-se a cantar_:

_No sei que quer a desgrcia
Que atrs de mim corre tanto..._

FRANCISCO, _interrompendo-o_:

Parece mal, home; cala-te!

MANOEL

Pois sim...

_... Que atrs de mim corre tanto...
Hei de parar e mostrar-lhe
Que de v-la no m'espanto..._

FRANCISCO

At  pecado.

MANOEL

Pecado e les fazerem-me o que me fazem.

FRANCISCO

Ests doido. Que  que te fazem?

MANOEL

Desde muito novo eu tenho sido aqui um engeitado. Minha me quase me no
criou como filho. Vedou-me antes dos seis meses; nem os peitos me quis
dar!...--J l est, a pag-las!

FRANCISCO

Ora! V a gente a ouvir-te. Tu s um doido.

MANOEL

Sou?--Porque dizes isso?...

FRANCISCO

Porque tenho rases.

MANOEL

Talvez. Eu odeio-vos a todos!

FRANCISCO

A mim tambem?

MANOEL

A ti. Queres-me roubar...

FRANCISCO, _plido, recuando_:

Eu?!

    _Ouve-se fra ruido de passos e vozes de gente que se aproxima._

MARIA JOANA, _de dentro, a gritar_:

L veem! l veem! Abram a porta... (_v Francisco arquejante, afogueado;
pra diante dle_). Que foi?

TNIO, _de fora, ao mesmo tempo, chamando_:

Maria Joana!  Maria!... Abram l isso! Abram! (_Batem com fora_).

    _Francisco corre a abrir a porta. H confuso, rebolio._--Santo
    nome de Deus! _diz Maria Joana. Entram o mdico e Tnio._

O MDICO

Ora at que emfim!... Boa noite!

VZES, _a um tempo_:

--Ba noite.

--Viva!

--Passe vossa senhoria bem...

TNIO

Chegue-se vossa senhoria ao lume que deve vir gelado. O frio  muito.

O MDICO, _aquecendo-se_:

Aceito. Venho gelado.

    _Faz-se silncio. O doente grita._

O MDICO

 o doente?

MARIA JOANA

Saber vossa senhoria que sim. O que aquela alminha tem sofrido, santo
nome de Deus! Se vossa senhoria o aliviasse daqueles tormentos,
por amor da sua senhora e dos seus filhinhos, se os tem...

MANOEL, _do lado, chasqueando_:

le no e casado, mulher!

O MDICO, _voltando-se, reparando em Manoel_:

Sou, sim senhor... Quem lhe disse a vocemece que eu no sou casado?

MANOEL, no mesmo tom:

Digo eu...

O MDICO, _para Maria Joana_:

Quem  ste homem?

MARIA JOANA

 meu irmo (_segreda-lhe qualguer coisa ao ouvido_).

O MDICO

Bem.--Vamos ver o doente. (_Indicando uma porta_)  por ali?

MARIA JOANA

Por ali; tenha a bondade... Vossa senhoria h de desculpar,  uma casa
de probes...

    _Desaparecem os dois falando, no interior da casa. Fora ficam os
    tres homens: TNIO, o irmo e FRANCISCO. Nenhum deles diz palavra.
    Um co pe-se a uivar, perto._

FRANCISCO, _nervoso_:

Olha o diabo do co!  o vosso?

TNIO

. Chama-o.

FRANCISCO, _vai  porta a assobiar-lhe_:

Eh! _Farrusco!_ Quieto! Venha c! Quieto!

    O co cala-se, mas d'a a pouco pe-se a uivar outra vez.

FRANCISCO

No h meio! Se fsse meu dava-o, ou vendia-o... Punha-o com dono.
_Farrusco!_ (_assobia-lhe de novo_).

MANOEL

Deixa l o animal! que mal te faz o animal? Tambem com le te metes?
Aquilo foi desde que entrou o mdico: cheirou-lhe a defunto...

TNIO

Bruto!

    _Os dois irmos entreolham-se ferozmente. Passa entre les uma
    labareda d'dio. Depois, MANOEL pe-se a cantarolar._

TNIO, _a meia voz_:

Farola! o que tu merecias...

MANOEL, _que ouviu bem_:

Tanto sopras no fole, que o fole um dia estoira...

TNIO

O qu? que dizes?

MANOEL

 c comigo...

TNIO

Escuta. Quem paga ao mdico sou eu, do meu blso, ouviste?

MANOEL

Bom proveito.

TNIO

As vinte moedas que ali esto (_indica um arcaz_) so da Maria Joana.

MANOEL, _erguendo-se, encandieirado_:

De quem?

TNIO, _enrgico_:

Da Maria Joana, j disse! O pai assim o quer. Cumpra-se a sua vontade,
mando eu!

FRANCISCO, _intervindo_:

Tnio, bem vs... A Maria Joana h de vir a ser minha mulher. Eu no
queria que por via disso... de dinheiro...

TNIO

T, t, t... no tens que agarcer; so dela. Eu  que mando aqui: sou
o mais velho.

MANOEL

Juro que te arrependes, Tnio! Cego seja eu de gta serena.

TNIO

Pois cego sejas tu.

FRANCISCO, _interpondo-se_:

Olhem o mdico! Tenham juizo,  menos...

O MDICO, _da porta, falando para dentro_:

Sim senhor, tudo se h de arranjar, esteja socegadinho... isso pssa
(_entrando_). Pobre homem!

TNIO, _avanando para o mdico_:

Est pronto, no  verdade? J d'ali no arrinca... Morre?

O MDICO, _querendo animar_:

Vamos a ver; emquanto h vida...

FRANCISCO

Sim, emquanto h vida, Tnio, h esperana! Tem por dizer...

TNIO, _desiludido, ao mdico, abanando a cabea_:

Na. Pde vossa senhoria desabafar; eu c sei o que vai haver esta
noite... Adivinho!

FRANCISCO

 home, que genio! que fraqueza! No vs ste senhor a dizer-te que
no. le  que sabe, que estudou...

TNIO

Pois sim. Estmos sem pai, Fracisco!

MARIA JOANA, _que vinha entrando e que ouviu o irmo dizer aquilo_:

O qu! Morre? (_Pausa. Ninguem responde; dirige-se ao mdico_). Morre?
meu pai morre? (_o mdico cala-se_) No me respondem! no me dizem nada!
(_levando as mos  cabea num desespero_) Ah, meu pai! Ah, meu
pai! Que no tenho outro...

FRANCISCO, _confortando-a_:

Ato, Maria Joana, vem c, vem c. Olha que le ouve.

MARIA JOANA

Deixa-me! Deixa-me!... Eu quero morrer tambem. Quero morrer, Fracisco.

FRANCISCO

Nosso-Senhor ainda pode muito, cachopa!

TNIO, _ao mdico que est preparado para, sar_:

Quanto ao trabalhinho de vossa senhoria, h de perdoar, ns l iremos...

O MDICO

Descansem, quando puderem, no tenho pressa; arranjem c a sua vida.
Agora o que  preciso  ir embora... Faz-se tarde.

TNIO

Pronto! (_a Francisco_)  Fracisco, tu agora vais aqui com o sr.
doitor, se te no custa, eu no posso... E trazes os remdios,
pelas almas.  um favor.

FRANCISCO

Vou e ponho-me a num foguete, vers. Dentro de duas horas estou de volta.

MARIA JOANA, _num gemido_:

Leva a arma!

MANOEL, _que tem estado sempre calado at aqui_:

Leva-a, se a quiseres... Empresto-ta.

    _Todos se voltam, admirados da generosidade._

FRANCISCO

No  preciso; levo antes esta (_mostra um marmeleiro ferrado_)  mais
certeira... Bem hajas!

    _Do as boas noites. Sai le e o mdico. Uma lufada d'ar entra,
    quando se abre a porta, apagando a luz._--Fechem a porta! _ouve-se
    dizer no escuro. A porta fecha-se com mo misteriosa... Tinha sido o
    vento. TNIO, dentro, s apalpadelas, procura a candeia, que
    acende ao fogo duma acha, no lume da lareira, soprando-lhe para a
    atiar. A scena  lugubre. MARIA JOANA  uma rodilha, a um canto, a
    soluar._

TNIO

V, rapariga! Cobra nimo! Estas um engrimano, uma dama...

    _MARIA JOANA parece reanimar-se. Limpa as lgrimas s pontas do
    leno da cabea. Vai ao vasal, tira uma tijela, e enche-a de gua.
    MANOEL nem palavra: fuma._

TNIO

Para onde vai isso?

MARIA JOANA

 para o pai; no leva nada desde ontem... Pediu-me gua, que dizes?
(_Tnio encolhe os ombros_) Soube-lhe to bem a outra... Tinha-me dito:
filha, d-me de beber; tenho um fogo aqui dentro.... E eu dei-lhe de
beber. Parece que aliviou. O mdico disse-me que lhe dsse o que le
pedisse. Dou?

TNIO

Se le o disse...

MANOEL, _de troa_:

D-lhe vinho, d-lhe vinho...

TNIO, _furioso, agarra num banco e avana para o irmo_:

Esmago-te como a um sapo, maldito, se te no calas! (_Os seus olhos
chispam lume_).

MANOEL, _erguendo-se_:

Experimenta e vers o trco... (_Diante dle_): Sim! sim!

MARIA JOANA, _suplicante, entre os dois_:

Tnio! Manel! Nosso-Senhor castiga-vos!... Por Deus! Ai, Jesus!

TNIO, _cedendo_:

O que te vale...

    _Sentam-se ambos, calados, tacitumos, a distncia. MARIA JOANA fita
    um momento o grupo. Respira profundamente, desolada. Entra depois no
    quarto do doente, cabisbaixa, cambaliante._

    _Grande silncio!_

    _Sbito, um grito, depois outro,--lancinantes, desesperados, dentro
    do quarto. Os dois irmos levantam-se apavorados._

MARIA JOANA, _ porta, num paroxismo_:

O pai! o pai!... Morto! (_volta como louca  cabeceira do cadaver_).

    _TNIO precipita-se tambem desvairado no quarto do pai, atrs da
    irm. Continuam os gritos. MANOEL tem uns segundos de perplexidade,
    olha em redor, hesita, vai, corre para o arcaz; abre-o, mergulha o
    brao nervosamente no fundo; tira tudo,--roupas, farrapos, misrias,
    remeche,--procura, encontra emfim o que ambiciona: a bolsa com as
    vinte moedas!_

TNIO, _que entra desgrenhado, percebe tudo, exclama_:

Ah, tratante! ah, ladro!... Agora  que tu queres roubar a tua irm!

    _Atira-se a le. Trava-se uma luta entre os dois, encarniada: qual
    de baixo, qual de cima, com as garras, com os dentes--como dois lies!_

MARIA JOANA, _szinha, brada, abrindo a porta, para a solido dos campos
ermos, na chuva e na ventania_:

Acudam! aqui d'el-rei!... Acudam!

    _Ninguem! Tudo se passa como num deserto, a milhes de lguas da
    outra gente, no isolamento daquela casa maldita! MANOEL, rto,
    alucinado, escorrendo sangue, consegue erguer-se do cho, aonde por
    duas veses o prostrra o pulso frreo de TNIO; apanha emfim a
    espingarda e alveja-o._

MARIA JOANA, _interpondo-se, num salto gil_:

Ai, que te desgraas! ai que te desgraas, Manel!

MANOEL

Larguza! larguza seno arrebento-te tambem...

    _Ela resiste, debate-se, diante da arma. Esta, num repelo,
    dispra-se, indo a carga alojar-se no peito da rapariga._

TNIO, _vendo a irm cada num lago de sangue_:

Mataste-a!

MANOEL, _poisando a espingarda e com um sorriso cnico_:

Matei?... Pois tira-lhe a pele, que  d'estimao...

    _Recomeam a luta._


    [1] O autor no quis nesta novela, a que deu indiferentemente a
    forma dialogada, tentar um gnero de literatura dramtica como
    sse que h tempos a se exibiu em palcos Portugueses (no sabe
    se com grande ou pequeno exito) com o titulo de _Grand-Guignol_,
    importado directamente de Frana. Gnero macabro, terrorista,
    insalubre, visando a provocar no pblico as fortes comoes nervosas
    pelo espectculo de scenas lgubres, sanguinrias ou simplesmente
    extravagantes.--Esta _tragdia rstica_  um ligeiro estudo do
    caracter supersticioso, bestial, por vzes quase feroz, da pobre,
    inculta, miservel gente das aldeias beiras, em cujo seio os
    instintos, bons ou maus, falam ainda a linguagem espontnea e
    brbara das primitivas idades.

      *       *      *      *      *




O pai da criana


(Conto carnavalesco)




O pai da criana


(Canto carnavalesco)

ste padre Borregana, cnego da S, tem uma histria.

Toda a gente tem uma histria,  claro; mas a do padre Borregana  uma
histria singular, digna de contar-se e de ser ouvida.

Padre Borregana nasceu padre como outros nascem militares, ou poetas, ou
oradores, ou assim... Nasceu padre. Desde muito novo revelou uma grande
_queda_ para aquele mister. Compleio debil, esprito supersticioso e
timorato, era le quem acendia as velas do altar-mr nos dias de missa
cantada; quem ajudava a dobrar o sino dos entrros; quem levava a
caldeirinha e o hissope entoando o _Bemdito_ com o Senhor; quem dizia
_ora pro nobis_ atrs do plio nas procisses; quem informava as beatas
dos ataques hemorroidrios do sr. arcebispo no tempo do arroz de tomate...

--Podia ter nascido corcunda, podia ter nascido zanaga, dizia o pai, a
justific-lo; ningum se faz...

E no.

Velhos condiscipulos dle no liceu e depois no seminrio, ainda hoje
diziam que o padre Borregana fra a mais decidida vocao que tinham
conhecido para o sacerdcio--para a castidade sobretudo,--o que aos seus
olhos de peccadores inconfessveis o tornra particularmente famoso,
votado sem esfro ao sacrifcio duma existncia de renncia, frouxo de
vontade como era, e ento com um apelido que lhe assentava como uma luva...


Quando,--j depois de ordenado--desceu o estribo do comboio na estao
do Rocio, uma tarde, padre Borregana ficou atarantado, hesitante,
como uma criana que perde a ama, no meio da barafunda, do vozear
confuso da multido que se acotovelava a sar da _gare_.

-- padre Borregana!  padre Borregana!...

Voltou-se. Quem o chamava? Que lhe queriam?... Diante dle um sujeito
alto, encorpado, abria-lhe uns grandes braos, oferecia-lhe o peito
largo para o receber. Padre Borregana trepidou.

--No me reconheces, homem? Sou eu!... Olha bem p'ra mim: o Atade!

O Atade! Quem havia dizer! Com aquelas barbas, aquele todo distinto,
aquele ar de pessoa importante e abastada!...

--Tu! Pois tu!...--murmurou o padre.

E abraaram-se enternecidamente.

Emquanto iam sando da estao, o outro explicava-lhe: tinha subido,
tinha trepado, formra-se... arranjra um casamento rico e uma boa
colocao...

--Sim?!

-- verdade.

Padre Borregana estacou, admirado.

--Mas ouve c, disse, como demnio conseguiste tudo isso? Tu, demais a
mais,--desculpa que te diga--mas nem eras dos mais atilados...

O outro sorriu, superiormente:

--Dos mais atilados! Pobre rapaz! Consegui isto como se consegue tudo na
vida... como se consegue ser homem, ser gente, ser algum neste mundo: 
custa de muito ponta-p!...

E separaram-se.


Mais adiante, Borregana, que caminhava apreensivo, scismtico, no
encalo do moo de fretes, em demanda dum albergue pacato, sentiu a
ponta duma bengala tocar-lhe discretamente no ombro:

--Psst!... Borregana!

Voltou-se de novo, e deu de cara com outro velho conhecimento, a quem a
sua presena inesperada causou igualmente grande surpresa e alegria.
Repetiu-se, _mutatis mutandis_, a mesma scena: tambm ste
trepra, tambm ste vencera, tambm tinha uma linda posio...

-- boa! E tudo isso...--balbuciou.

-- custa de muito ponta-p!

--!!


Ao desandar da rua do Carmo para o Chiado maior espanto o aguardava.
Desta vez o velho amigo era um ministro--e ministro da Justia!--que lhe
abriu os braos como os outros (o que fez juntar gente...) e como os
outros lhe confessou que tinha subido, trepado-- custa de muito
ponta-p!...


Dias passaram. Padre Borregana regressou a penates. Um domingo, logo
depois da missa, chamando de parte o sacristo, lial companheiro e
confidente, segredou-lhe:

--Cristvam! vais-me aqui prestar hoje um grande servio...

O sacristo, um diab'alma alentado e grosso, bruto como umas casas,
muito respeitador das qualidades e ornamentos do cura, murmurou,
comovido e modesto:

--Um servio? Oh! sr. prior!... Queira vossa reverendissima ordenar...
C por mim s se no pudr...

--Um grande servio, Cristvam, um grande servio...

Botou uma olhadela  igreja, outra ao S. Jernimo do altar, outra a
bandeira das almas, e erguendo por fim as abas da batina ensebada,
revirou-lhe o ndio csso, exclamando:

--Frras-me a um ponta-p!...

--Quem, eu?

--J disse, Cristvam: um ponta-p.

O sacristo presumiu-o doido. Hesitou, mas por ltimo, vendo o ar
decidido do presbtero, para o no irritar, fez-lhe a vontade,
encostando-lhe a biqueira ferrada ao hemisfrio sul, devagarinho...

--Fora, homem! isso no  nada, suplicou o padre, cuja estranha
flagelao parecia dever ench-lo de infinito gso--isso no  nada!

-- sr. prior, mas eu...--tartamudiou o Cristvam, condodo.

E o padre Borregana, num palpite, de mos postas:

--Depressa! depressa!... Pelas cinco chagas! pelas cinco chagas, Cristvam!

--le  isso?, rosnou o sacristo com os seus botes; e despresando
escrpulos, atirou-lhe um coice, com tal violncia, que o fez baquear e
gemer:

--Ui!

--Ah, j?...--e atirou-lhe segundo.

Nisto um matraquear de tamancos no lagedo da igreja.

--Quem ? quem vem a?, bradou o padre aflito, cheio de dres,
estorcendo-se.

-- para o sr. prior, esta carta...

--Para mim?!

Era um telegrama.

O prior precipitou-se, rasgou todo trmulo a obreia do sobrescrito: Por
ordem de S. Ex.... (turvou-se-lhe a vista)... nomeado cnego.

Caiu sbre um banco que para ali estava a um canto, aniquilado, morto de
comoo. Quando despertou daquela espcie de sncope o prior
estava triste... Em volta houve um alarido, um espanto, mal constou o
milagre... Porque fra um milagre! Tudo quis ver e visitar o sr. padre
Borregana, feito cnego--a ponta-p. No recebia? Porqu?... Talvez
dorido, coitadinho, talvez de ferido no poisadoiro com a brutalidade da
operao. E invectivava-se o Cristvam--bruto! verdugo!--que se
desculpava, dizendo:

--Pois sim, pois sim, mas se no fsse eu...

Tinha raso.

A roda das beatas da terra toda se desfazia em favores e conselhos de
arnica, de unto de cobra e semi-cpios de malvas, para aliviar as dores
e a tristeza do prior, cujos nadegueiros--j agora uns nadegueiros de
cnego--entumesciam e grelavam...

Dizia-lhe a criada:

--Parece que ficou a modos triste, sr. cnego?...

--E fiquei, pudra, se no tenho de qu, cachopa!--queixava-se.

--De qu?! Hom'essa! Depois duma nova assim!...

--Depois duma nova assim; admiras-te? Com dois ponta-ps arranjei a ser
cnego, mas se aquele alarve se no demora e me prga logo uma dzia
deles, quando eu dizia, estava a estas horas bispo! Bispo, imagina!...
Se no hei-de estar aborrecido...


O milagre no obstante ficou de p, ntegro, documental, palpvel, a
atestar o dedo da Providncia na ferradura do Cristvam. A religio,
vigilante, viu logo na pessoa do padre virtudes canonisveis...

Apenas o Sequeira, funcionrio de finanas, livre pensador e ateu--um
doido!--zombava, fazia menos daquilo, afirmando em toda a parte que o
padre Borregana tinha tido um cnego pelo traseiro, e que o pai da
criana era o sacristo!

      *       *      *      *      *




ndice


ndice

Aquela famlia                                                           5

A bca do sapo                                                          17

Sr. Anselmo (Perfil grotesco dum provinciano ilustre)--(1906)--I        37

Sr. Anselmo (Perfil grotesco dum provinciano ilustre)--(1912)--II       85

Candidinha Cerdeira (Novela romantica)                                  89

Eureka!                                                                113

O crime                                                                123

Casa maldita (Tragedia rstica)                                        133

O pai da criana (Conto carnavalesco)                                  165






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